Minha vida numa moto: Cantando na chuva!

Minha vida numa moto: Cantando na chuva!

Uma coisa que guerreiros e motociclistas têm em comum é que ambos devem ser imunes ao tempo. Calor, frio ou chuva; os dois precisam aprender a prever e superar. Na minha vida em uma moto eu aprendi a olhar o tempo, planejar o caminho e cuidar da segurança. Sun Tsu, grande general chinês já dizia que um bom guerreiro precisa dominar vários fatores: o terreno, o tempo (clima), o inimigo e a si mesmo. Se você consegue fazer isso dificilmente terá problemas numa empreitada.

Hoje com o advento da internet e com os celulares conectados tudo ficou mais fácil. Uma dessas facilidades está relacionada a poder conhecer o trajeto e suas alternativas, o clima e o estado das estradas. Uma pequena consulta ajudará a não pegá-lo desprevenido. O Brasil é um país continental e temos regiões com micro-climas e relevos peculiares, não conhecê-los pode trazer problemas. Há regiões onde existem duas estações – a de chuvas e a de sol. Em outras temos as quatro estações onde inverno não quer dizer chuva e verão nem sempre tem sol.

Uma das coisas que costumo fazer é consultar o tempo e o trajeto a percorrer antes de sair. Isso vai determinar a melhor roupa a usar, a postura da pilotagem e até qual moto escolher. Quando vejo que tem chuva eu já saio de casa preparado para o encontro com as águas, lama e pista escorregadia. Uma boa roupa de plástico é fundamental para evitar que tome um grande banho. Lembre-se que esta roupa protege a roupa de baixo apenas da chuva. Portanto, quando comprar pegue o número que consiga cobrir a sua jaqueta. Existem jaquetas de cordura e/ou tecidos impermeável ou com tratamento contra água, mas nenhuma delas aguenta muita chuva por muito tempo. Somente as capas plásticas são realmente impermeáveis. A roupa do piloto deve ser a mais impermeável possível. Prefira botas de cano mais alto (impermeáveis) e deixe a calça por cima. Por a calça por dentro é chamar água pra dentro da bota.

Seguindo o conselho dos meus amigos para ter uma moto para uma coisa e outra moto para outra coisa eu descobri que em dias de chuva as motos off-road são a opção mais segura. Motos custom e esportivas devem ficar em casa, pois você irá precisar de toda aderência que puder.

Uma vez ao sair de casa, no caminho do trabalho, vi que iria começar a chover. Pego de surpresa decidi imediatamente entrar em um posto e fui me vestir. Enquanto isso fiquei de olho no asfalto. O asfalto carrega várias sujeiras que só aparecem com a chuva, dentre elas estão o óleo, graxas, poeira e terra; e uma espécie de salmoura que fica na pista na forma de uma espuminha branca. Ligue-se nisso, pois sair na chuva logo que ela começa e não esperar um pouco para ‘lavar o asfalto’ pode determinar se o risco de ‘comprar-chão’ será maior ou menor. Minha dica, que sempre deu certo foi – pare imediatamente e troque de roupa. Espere uns 15 minutos dependendo da intensidade da chuva para voltar a rodar. Deixe o asfalto lavar um pouco e que aquela espuminha diminua.

Quando decidir ir para a estrada com chuva tome o cuidado de guardar em uma saco plástico celulares e documentos, mesmo que possua um baú. Use o farol alto e pegue a pista do meio e vá acompanhando a trilha deixada pelo sulco dos pneus dos carros. Procure ficar longe do spray e lembre-se que frear na chuva é algo bastante complicado.

Se estiver na estrada e puder evitar andar na chuva, será bem melhor, pois a sua visibilidade será menor e a dos outros veículos também. Lembre-se que o desconforto da chuva ou o frio ajudam a perder a concentração. Mas se não tiver jeito – andar na chuva requer mais alguns cuidados:

Na cidade evite o canto interno das curvas, pois é lá que junta toda a sujeira que a chuva varre, é por onde circulam os veículos pesados, que geralmente vazam óleo diesel e combustíveis os quais são um verdadeiro ‘sabão’, especialmente quando molhados. Cuidado com as poças d’água! Evite-as! Geralmente elas escondem buracos que podem provocar quedas ou um indesejado aquaplane. Tanto na cidade quanto na estrada ande sempre atrás das rodas do veículo à sua frente (prefira veículos pequenos) – esta dica também vale para pista seca!

Na chuva, se puder, diminua a pressão dos pneus, quanto mais superfície de contato na pista mais seguro estará. Diminua até oito libras, mas lembre de voltar a calibrar quando parar a chuva (deixe a preguiça de lado). Frear na chuva ou em pista molhada exige alguns cuidados. A pressão que se exerce no manete do freio quando está seco não deve ser o mesmo nas condições molhadas. Quando você carrega mais pressão, ele seca rapidamente e pode causar o bloqueio da roda (alicatar) e nesse caso, é ‘chão’ na certa! Freie com cuidado e com calma mesmo nas condições mais adversas.

Uma dica importante é reduzir a velocidade em 40% em relação a que você normalmente andaria naquela estrada, isso vai ajudar a melhorar a relação de frenagem da moto. Onde eu moro, no inverno costuma ter nevoeiros. Deixe para sair quando ele se dissipar. Sair sob nevoeiro forte ou fraco aumenta o risco de tomar uma batida por trás, pois as luzes traseiras das motos são muito pouco visíveis nestas condições. Se tiver o recurso do pisca-alerta use-o mesmo na cidade e repito – na chuva use o farol alto, pois você é quem precisa ser visto.

Na chuva o capacete costuma embaçar a viseira. Se vai sair na chuva, existem dois macetes que podem ajudar. Se não tiver uma boa cera, pingue uma gota de óleo (de cozinha ou azeite) com uma flanela seca e limpa pelo lado de dentro e realize o mesmo procedimento pelo lado de fora. Vai ajudar a reduzir o embaçamento e manter o excesso de água longe da viseira. Tente nunca levantar a viseira totalmente. Se entrar um esguicho de água direto no seu rosto pode te cegar temporariamente e aí…

E por último um alerta precioso: Cuidado com as faixas divisórias de pista! Esta faixa que divide as pistas é sempre em alto relevo por ter uma camada de tinta mais grossa e andar sobre ela às vezes desgoverna a moto, portanto sempre segure firme seu guidão quando estiver sobre ela. Se a pista estiver molhada, o cuidado sobre esta faixa deve ser muito maior, pois esta tinta para brilhar a noite é feita com micro-esferas de vidro e o vidro molhado é altamente escorregadio. Por favor, sobre elas, NUNCA TRACIONE! E ao entrar em postos de combustível procure entrar com todo o cuidado. Caminhões e carros sempre deixam cair óleo e graxas nos primeiros 10 metros a partir da entrada do posto. Escolha um lugar seguro e com atrito para parar. Isso vai evitar tomar um tombo bobo na frente de todo mundo. Nunca esqueça que a gente sempre leva um tombo desses quando tem muita gente olhando.

A propósito, o Comendador Sucupira, meu saudoso avô, quando chovia em Fortaleza, Ceará (sim, lá também chove!) era dia no qual ele deixava a bicicleta em casa e calçava suas galochas, abria o guarda-chuva, colocava o capote e pegava o caminho até o trabalho. Dizia ele que bicicleta em dia de chuva só tinha um incômodo: -“Deixava um rastro nas costas do paletó…”

Este é um pouco da minha vida numa moto. Semana que vem a gente fala de capacetes. É uma das poucas situações onde ter a ‘cabeça-dura’ faz toda diferença. Até lá!

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