Calculadoras: Do Enigma de Anticítera à HP.


1900. Costa da ilha grega de Anticítera, entre a ilha de Citera e a de Creta. Há 43 metros de profundidade, mergulhadores encontram em meio a estátuas e vários objetos, restos de um artefato misterioso. O objeto foi datado como sendo da época de 87 a.C. Dois anos depois, em maio, o arqueólogo Spyridon Stais notou algo estranho: uma das peças de pedra possuía uma roda de engrenagem. Nascia o Enigma de Anticítera. Durante anos muitos cérebros privilegiados tentaram desvendar o mistério da sua utilidade. Se é que teria alguma…

Em 2005, um século depois, a HP entrou na pesquisa ao utilizar um sistema de reprodução de imagens que permitiu a leitura de textos até então ileligíveis por conta da ação do tempo. Em 2006, o astrônomo grego Xenofondas Musas, diretor do departamento de Física e Astronomia da Universidade de Atenas, anunciou em Atenas que o enigma estava desvendado. A conclusão que chegaram era de que o engenho de metal de complicadas combinações de engrenagens era um computador e ao mesmo tempo um aparelho destinado a astronomia.

A Máquina de Anticítera, como passou as ser chamada, jamais havia sido registrada por nenhuma fonte sobrevivente. Tal fato intrigou ainda mais os pesquisadores pois mostrou que havia pouco conhecimento da tecnologia antiga. A máquina podia realizar cálculos de astronomia e determinar a posição dos planetas desde o século I a.C., data estimada da sua construção. Os cientistas concordam que se trata do mais antigo computador analógico até hoje conhecido e de uma evolução do planetário construído por Arquimedes e das construções megalíticas de Stonehenge, na Inglaterra. Não totalmente satisfeitos, a curiosidade dos cientistas fez com que outra reconstrução da máquina de calcular de Anticítera fosse feita em 2002 por Michael Wright, engenheiro mecânico e curador do Museu da Ciência de Londres. Através da tomografia linear, ele pode visualizar as engrenagens em maiores detalhes e descobriu que o aparelho não só modelava os movimentos do Sol e da Lua, mas de cada corpo celestial conhecido pelos gregos antigos: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.


(Reconstrução da Máquina de Anticítera)


(Posidonius)

Essa análise confirmou antigas referências a tais aparelhos. Cícero, no século I a.C., menciona um instrumento “recém-construído por nosso amigo Posidonius, que, a cada revolução reproduz os mesmos movimentos do Sol, da Lua e dos cinco planetas”. Confirma também a tradição grega em tecnologia de mecânica complexa transmitida pelo mundo árabe, onde aparelhos similares encontrados posteriormente, porém mais simples, poderiam ter sido incorporados pelos fabricantes de relógios e guindastes europeus. Alguns cientistas acreditam que a Máquina de Anticítera era uma sofisticada calculadora que servia para medir a posição de eventos e até nascimentos.

‘Cálculo’ em latim quer dizer ‘pedra’. Acreditam os historiadores que foi a arte de organizar pedras dispostas em colunas que deu origem a primeira calculadora, o ábaco, que nasceu nas China no século VI a. C.


(Régua de Cálculo)


(John Napier)


(William Oughtred inventa em 1638 a régua de cálculo.)

Basendo-se na tábua de logaritmos criada por John Napier em 1614, o padre inglês William Oughtred inventa em 1638 a régua de cálculo. A grande semelhança com uma régua como a conhecemos pára por aqui já que a régua de cálculo é um mecanismo que nada tem a ver com medição de pequenas distâncias ou o traçado de retas. Muito mais poderosa, a régua de cálculo é a mãe de todas as calculadoras eletrônicas modernas e foi largamente usada até que em 1970 surgiram os primeiros modelos na versão eletrônica que acabou difundida e aceita em função de sua grande simplicidade e precisão.


(Tábua de logaritmos criada por John Napier.)

Até 1970 a régua de cálculo era o que mais se aproximava do que seria hoje um computador. A régua de cálculo era uma espécie de computador mecânico analógico que permitia realizar cálculos através de guias graduadas deslizantes. As réguas de cálculo, apesar de potentes, não forneciam valores exatos e sim aproximados e que eram aceitos como possíveis até certa aplicação. Os valores eram aproximados e mesmo assim eram aceitos.

O ano é 1642. A mente brilhante de um jovem determinado a facilitar a vida do seu pai, cobrador de impostos, fez com que aos 19 anos construísse uma máquina que girando umas pequenas rodas, somava e subtraía. O rapaz, que também desejava ser um cobrador de impostos, mais tarde seria um dos mais importantes personagens da ciência mundial. O jovem de 19 anos era nada menos que Blaise Pascal, que no futuro passaria para história como filósofo e matemático francês. Apesar de ser muito precisa e rápida o invento de Pascal nunca foi bem aceito. Os funcionários que à época ganharam dinheiro fazendo cálculos à mão temeram perder seus empregos e se recusaram a usá-la. Antes da invenção de Pascal a ciência dos cálculos gerava um trabalho enfadonho e tedioso, geralmente impedindo o progresso científico. Na área da astronomia, onde os cálculos eram enormes, levava-se anos até que fossem completados pelos matemáticos.


(Blaise Pascal)


(Máquina de somar inventada por Pascal)

Trinta anos depois o matemático alemão Gottfried Wilhelm Von Leibniz criou a “roda graduada” que era capaz de realizar as quatro operações fundamentais e ainda conseguia extrair a raiz quadrada. Em 1880 Herman Hollerith trabalhava no departamento de recenseamento dos Estados Unidos. O jovem de 20 anos estava preocupado com o trabalho que isso daria por conta da grande quantidade de informações que iria gerar e que precisavam ser contabilizadas. Foi para resolver este problema que ele criou o um mecanismo que aliava a calculadora ao cartão perfurado. Hollerith abriu sua empresa em 1896 junto com dois sócios e deu a ela o nome de IBM – International Business Machine. Mas a evolução das calculadoras não parou por ai. Outros modelos foram criados e ela evoluiu bastante até chegarem às calculadoras gráficas, científicas e financeiras popularizadas pelo mundo através das marcas Casio, Sharp, Hewllett-Packard(HP) e Texas Instruments(TI).


(Máquina de Hollerith que deu origem a ponderosa IBM)


(Hollerith abriu sua empresa em 1896 e deu a ela o nome de IBM)

A máquina de calcular é considerada uma das maiores invenções da humanidade. A partir dela muitas coisas tornaram-se possíveis por serem mais fáceis e rápidas. Da sua evolução surgiu o computador como conhecemos e depois dele todo um mundo mais moderno tecnologicamente. Mas nada ainda é mais veloz e intrigante que a mente humana que cria todas estas máquinas maravilhosas. Certa vez alunos chineses mostraram que é possível fazer contas complexas com um simples ábaco de forma muito mais veloz do que um ocidental munido de uma moderna calculadora eletrônica. Ainda que a calculadora eletrônica responda quase que imediatamente, os alunos chineses conseguiram terminar os cálculos antes mesmo que seu competidor tivesse acabado de digitar os algarismos no teclado da calculadora.

Mas ainda há um enigma a ser totalmente desvendado quanto a capacidade de gerar soluções simples, na forma de ferramentas, para problemas tão complexos: O enigma do cérebro humano.

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