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A ‘Serra Verdadeira’ e a Rota do Jazz no Ceará

A rota tem forma de coração
A rota tem forma de coração
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Os Águias do Apcalipse na noite anterior a viagem

Dizer que todos os caminhos levam ao Maciço de Baturité não é um exagero. São vários e todos eles repletos de histórias. O Maciço é conhecido pela exuberância da sua mata ainda preservada, como flora, fauna, riachos, quedas d’água, fontes de água mineral, além de um dos raros vestígios de Mata Atlântica existente no interior nordestino e ainda pelo clima frio e mais recentemente pelo Festival de Jazz de Guaramiranga que há cerca de 16 anos virou uma tradição para aqueles que não gostam de carnaval.

A região do Maciço de Baturité ocupa uma área de 3.750,1 Km² e encontra-se dividida em treze municípios: Acarape, Aracoiaba, Aratuba, Barreira, Baturité, Capistrano, Guaramiranga, Itapiúna, Mulungu, Ocara, Pacoti, Palmácia e Redenção.

Os cajueiros de Barreira

Imagem3Convidamos os Águias do Apocalipse MC para nos acompanhar na nova rota, desta vez indo por Barreira – a Terra do Caju e que é a primeira cidade do maciço logo após o município de Chorozinho. Pegamos a BR116 e seguimos até Chorozinho. Lá entramos à direita em direção à Barreira pela CE354. Barreira é uma cidade que vive do caju. É fácil perceber pois existem inúmeras florestas de cajueiros à beira da estrada.

Entre Barreira e Acarape existem as minas de calcário e de uma hora para outra o verde dos cajueiros cede espaço para o impecável branco do calcário. Passamos por dentro de Acarape e é preciso prestar bem atenção às placas para não errar o caminho da CE060. Em poucos quilômetros chegamos à Redenção – Terra da Liberdade. É aqui que se juntam a CE354, a CE060 e a CE253 que é uma outra rota em direção ao Maciço, só que entrando por Pacajus e a partir de Redenção segue até Pacoti e depois desce por Campos Belo em direção à BR020 e depois em direção à Fortaleza.

A Redenção que virou Vila

Imagem14Foi em Redenção que em 1 de janeiro de 1883, chegaram à então Vila Acarape, abolicionistas como Liberato Barroso, Antônio Tibúrcio, Justiniano de Serpa, José do Patrocínio e João Cordeiro, com a finalidade de assistirem a alforria de 116 escravos do lugarejo. A partir daquele ato, em frente à igreja matriz local, não haveria mais escravos ali, ganhando a vila o nome de Redenção, pioneira em libertar seus escravos no País. Em reconhecimento ao fato de ter sido a primeira cidade do Brasil a abolir a escravidão, Redenção sedia a UNILAB -Universidade Federal de Integração Luso-Afro-Brasileira desde 2009.

Imagem12As primeiras comunidades da região do Maciço de Baturité se originam por volta da década de 1680, a partir da ocupação de pequenas aldeias. Contudo, as terras do Maciço permaneceram sem ocupação até 1718 quando o Tenente Coronel Manuel Duarte da Cruz, ocupou parte da região que hoje é denominada Aracoiaba. Nas duas décadas seguintes foi tomada a parte poente da serra, hoje, conhecida por Aratuba. No ano de 1764, o ouvidor geral da Capitania do Ceará, Victorino Soares Barbosa, fundou a Vila Real, onde hoje estão os municípios da região do Maciço, com exceção de Palmácia e Ocara. O nome de Baturité – que significa Serra Verdadeira – só passa a ser adotado no ano de 1841 e, no ano de 1858, a Vila de Baturité passa à categoria de cidade.

Baturité – Começa a Serra Verdadeira

Estação Ferroviária de Baturité. Ao fundo a 'Maria Fumaça'
Estação Ferroviária de Baturité. Ao fundo a ‘Maria Fumaça’

Chegamos a Baturité que é onde começa a ‘Serra Verdadeira’. Por causa do clima ameno e da água em abundância, Baturité e outros municípios vizinhos serviram de refúgio para sertanejos vindos de Canindé e Quixadá, durante a Seca dos Três Setes (1777 a 1793). Um marco da presença católica no município é o grupo de igrejas, conventos e mosteiros que ainda resistem ao tempo e alguns deles convertidos em hospedarias.

Estrada de pedra
Estrada de pedra

Com a chegada dos pernambucanos, a região passa a cultivar a cana-de-açúcar e o café. Em meados do século XIX, Baturité torna-se o maior produtor de café do Ceará. O desenvolvimento da região acelerou com a instalação da ferrovia que ligava o Maciço à Fortaleza. Por ela os pequenos agricultores levavam sua produção para a capital. Tanto o Museu da Liberdade, em Redenção, como a exposição das obras de Olavo Dutra de Alencar que fica na Estação Ferroviária de Baturité e outros museus estavam fechados. Detalhe: era um domingo, teoricamente, dia de museu aberto.

Uma das maiores imagens do mundo dedicadas à Nossa Senhora de Fátima
Uma das maiores imagens do mundo dedicadas à Nossa Senhora de Fátima

Seguimos para a rota religiosa e rumamos por estrada de pedra até a imagem de Nossa Senhora de Fátima exposta no alto do morro da Via Sacra – uma das maiores já construídas no mundo, perdendo apenas para a imagem de Nossa Senhora de Fátima existente na Praça 13 de Maio em Fortaleza, CE. Subimos em três Harley. Mas você pode deixar as motos na cidade e enfrentar o caminho da Via Sacra Pública de Baturité com 365 degraus e que vai dar onde fica a imagem da Santa.

Mosteiro dos Jesuítas
Mosteiro dos Jesuítas

A partir da imagem de Nossa Senhora de Fátima temos uma privilegiada vista da antiga Escola Apostólica dos Jesuítas hoje popularmente conhecida como Mosteiro dos Jesuítas, onde funciona uma casa de retiros, encontros religiosos, congressos, hospedagem e até descanso. O prédio lembra um castelo medieval e é de uma beleza incomparável.

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Do café a Mulungu

De lá seguimos para Mulungu. A estrada que liga Baturité a Mulungu a CE356 se conecta em Aratuba com a CE257 que é outro caminho que leva à ‘Serra Verdadeira’ vindo por Canindé. Mulungu experimentou o desenvolvimento com a introdução da cultura do café. Famílias inteiras deixaram os sertões de Canindé e Quixadá para se estabelecer no alto da serra.

Um visual exuberante
Um visual exuberante
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Igraja Matriz Mulungu

A Evolução natural do povoado determinou sua elevação a Vila e a emancipação de Baturité em 1890. O município de Mulungu foi extinto e recriado várias vezes até que a definitiva emancipação aconteceu em 1957. São Sebastião é o padroeiro e a estátua pode ser vista de qualquer ponto da cidade. Imperdível é visitar o distrito de Lameirão que fica na metade do caminho para Aratuba. Lá é possível ter uma visão de rara beleza.

O clima rural encanta e a paisagem deslumbrante de Mulungu convida a conhecer cachoeiras, trilhas e muito verde. Ainda é possível visitar engenhos. A melhor época é nos meses de maio a dezembro que é quando fazem a moagem da cana.

 

A Guaramiranga do ‘Pássaro Vermelho’ e do Festival de Jazz

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Dia de Festival Imagem: arquivo
Dia de Festival – Divulgação

Voltamos para a CE356 e agora rumo a Pacoti passando por Guaramiranga. O historiador Pompeu Sobrinho defende que Guaramiranga significa ‘Pássaro Vermelho’, então, na cidade do ‘Pássaro Vermelho’ acontece Festival Jazz e Blues. Criado em 2000 o festival acontece no mesmo período do carnaval, quando depois desce a serra, indo para a cidade de Fortaleza.

Hoje o Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga traz pessoas de vários lugares do Brasil e do exterior. Já passaram por aqui, nestes 16 anos, Hermeto Pascoal, Dino Rangel, Izzy Gordon, Traditional Jazz Band, Stanley Jordan, o grupo canadence Without Words, Renato Borghetti, Gilson Peranzzetta, Edu Negrão entre outros monstros sagrados do Jazz e do Blues.

Pacoti – ‘Voltada para o mar’

Um templo dedicado ao amor
Um templo dedicado ao amor

Era hora de pegar o caminho para Pacoti que significa ‘Voltada para o mar’. No caminho uma parada na Capela de Donaninha – Igreja de Jesus Crucificado. O que parece ser uma casa ou um mausoléu mal-assombrado é na realidade uma construção que representa uma bela história de amor entre o Comendador Ananias Arruda e sua amada Ana Custódio dos Santo, Donaninha. Casaram-se em Baturité (CE), em 17/09/1911.

Comendador Ananias Arruda e Dona Donaninha: Um amor eternizado na forma de um templo

A história de amor
A história de amor de mais de um século

Senhora Donaninha sofreu um infarto fulminante falecendo naquele local, em 1941, aos 46 anos de idade. O grande amor que tinha por Donaninha o fez erguer um monumento para que todos que por ali passassem lembrassem do grande amor que ele sentia por ela. Assim foi construída a Capela de Jesus Crucificado réplica da capela que existia na casa onde viviam em Baturité. A Capela contava com algumas imagens de santo que foram retiradas para evitar que fossem roubadas. As imagens se encontram em um museu de Baturité. Há um projeto (Proposta 1547476 número – 12823/2009) que pretende recuperar a capela em sua forma original e restituir ao local de origem as imagens e adereços da capela que se encontram depositados no Museu da Fundação Ananias Arruda em Baturité e ainda, transformar o local num centro de atração turística, porém o projeto originalmente orçado em R$ 174 mil reais e com a contrapartida da Prefeitura de Pacoti na ordem de R$ 3.560,00 está em análise desde 2010 sem nenhuma resposta por parte do Governo Federal e da Prefeitura de Pacoti.

Pires ao lado do cruzeiro que conta um pouco dessa história de amor
Pires ao lado do cruzeiro que conta um pouco dessa história de amor

O Comendador Ananias Arruda foi comerciante, agricultor, criador e jornalista. Não casou novamente, porém sua residência hoje foi transformada em um Museu pelo seu sobrinho Miguel Edgy Távora Arruda. Foi Comendador da Santa Sé, Ordem de São Silvestre, e também da Ordem de São Gregório Magno, pelo Papa Pio XII, a mesma Ordem a que pertence o Comendador Sucupira, meu saudoso avô. Ao Comendador Ananias Arruda foi dada pelo Papa Pio XI a autorização de manter no Oratório de sua residência o Santíssimo Sacramento, privilégio que foi renovado pelos Papas Pio XII, João XXIII e Paulo VI até a data de seu falecimento que aconteceu em 1980 aos 94 anos de idade. Recebeu também autorização para dar comunhão. Como não tiveram filhos a herança passou para mãos de parentes que abandonaram aquele belo monumento. Quando passar por lá pare, desça e tire uma foto com a sua amada, pois ali está uma prova rara de amor eterno, pois o Comendador Ananias Arruda ficou viúvo até a sua morte.

As 380 curvas que levam a Palmácia

Encontramos com os irmãos de Quixadá e Quixeramobim no K-Labar
Encontramos com os irmãos de Quixadá e Quixeramobim no K-Labar
Jan Messias e nós
Jan Messias e nós

Chegando em Pacoti fomos ao K-Labar, já tradicional ponto de encontro de motociclistas que sobem a Serra Verdadeira e lá encontramos o Jan Messias, nosso companheiro de estradas e histórias e vários irmãos de Quixadá, Quixeramobim e dos Gaviões dos Monólitos de Quixadá. Almoçamos e depois era hora de descer. Decidimos descer por Palmácia pela CE065 que passa por Maranguape, a Terra de Chico Anisio. São cerca de 380 curvas que não deixam você respirar e nem tirar o olho da estrada. Um descuido e você muda de faixa. Já o Rodrigo optou por descer pela CE253 em direção a Campos Belo pois iria pernoitar em Canindé. Tanto por Campos Belo como por Palmácia a emoção e a beleza estão contempladas. Se deseja uma rota linda de se ver e de fotografar opte por descer por Campos Belo via CE253. Se quer emoção e adrenalina, embarque nas 380 curvas da CE065 em direção a Palmácia.

As 380 curvas para Palmácia
As 380 curvas para Palmácia – Jan Messias

Guaramiranga Logo01O Maciço de Baturité é um lugar que vale muito mais que uma visita de um dia. Merece várias idas e vindas. Vale explorar, viver o lugar. Afinal, lá além de ser a ‘Verdadeira Serra’ do ‘Pássaro Vermelho’ e ‘Voltada para o mar’ tem ainda uma grande história de amor e um superconcorrido Festival de Jazz e Blues.

Agende-se, pois todos os caminhos levam ao Maciço de Baturité.

Curta abaixo o video da viagem.

AGRADECIMENTOS:

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