O Ouro Azul e o consumo virtual de água.

Para produzir cinco mil chips de 32MB, cada um pesando 2g, são necessários 16 mil litros de água, no total. “-Isso tudo?” Perguntei.

Eu não me considero um ecochato e abomino toda a forma de radicalismo e extremismo, mas vez ou outra eu costumo me permitir mergulhar em alguns problemas para poder entender, sob vários aspectos, as possíveis consequências que podem tomar grandes proporções. Um deles é o meio-ambiente. Neste caso em particular, a água.

Duas situações me fizeram olhar com mais carinho para algumas ameaças silenciosas. Esta semana foi realizado na Turquia o Fórum Mundial da Água. Autoridades debateram por vários dias e chegaram a conclusão que a elevação do consumo e o aquecimento global são os dois maiores fatores de risco para um problema que pode gerar grandes conflitos. No início tivemos a Guerra do Fogo, depois veio a Guerra do Petróleo, a crise da falta de alimentos que está ligada a outro grave problema: a possível escassez de água.

Conheço bem o Nordeste e já viajei bastante pelo interior desta região e por boa parte do Brasil. Conheço um pouco sobre o problema da falta, do desperdício e do racionamento de água. Quando li sobre o Fórum Mundial da Água alguns fatos vieram à tona e um em especial me chamou a atenção. Fiquei curioso por saber quanto se gasta de água para produzir alimentos e tecnologia e os resultados não me animaram muito.

Mergulhando mais fundo, depois de números e mais números, estudos e mais estudos, muita informação boa e outras tantas exageradas e apocalípticas; bem depois de tudo isso, cheguei a conclusão de que para produzir e reproduzir qualquer coisa neste mundo precisamos de água, portanto, cuidar bem dela seria a primeira causa de preservação ambiental.

Há um rico material disponível na internet sobre o tema, postado sob as mais diversas visões ambientais e humanitárias. Quero me deter na parte que trata do consumo virtual da água. O conceito de consumo virtual de água é o que trata da quantidade de água envolvida em toda a cadeia de produção de algum produto. Assim, no ato do uso, o indivíduo está consumindo também a água que foi usada como matéria-prima, na fabricação, no resfriamento das máquinas na indústria, na alimentação etc. De acordo com levantamento do Conselho Mundial da Água (CMA), cada quilo de pão utiliza 150 litros de água para ser produzido. Para cada quilo de batata, são utilizados entre 100 e 200 litros de água. Para produzir a mesma quantidade de arroz são necessários 1,5 mil litros. A carne de boi consome entre 13,5 mil litros e 20,7 mil litros de água por quilo produzido.

Menos de 1% da água doce do planeta está disponível para o consumo. Porém, nadando um pouco mais neste mar de informação cheguei ao Brasil e pude constatar que moramos no país mais rico em água doce do planeta. Nada menos que 13,7 % de toda água do mundo está aqui. O Pantanal, no Mato Grosso do Sul (e parte no Mato Grosso), é a maior área úmida continental do mundo e que a Amazônia abriga as mais extensas florestas alagadas do planeta.

Passando para o lado da saúde pública pude descobrir que 70% das internações hospitalares do Brasil são causadas por doenças relacionadas à água e que em todo mundo, cerca de 10 milhões de mortes anuais resultam de doenças intestinais transmitidas pela água. No Brasil 40 milhões de pessoas não têm acesso a água e em São Paulo, 70% da poluição das águas é de origem doméstica e 30% de origem industrial. Sobre o índice de desperdício de água no Brasil, o dado de que 40% são perdidos entre a produção e os domicílios, assusta.

Para produzir alimentos no Brasil, a agricultura consome 70% da água, as indústrias 20%, e as residências 10%. A mesma proporção vale para todo o mundo.

Para produzir um ser humano saudável são necessários várias centenas de litros de água, isso sem falar que passamos nove meses mergulhados numa sopa protéica a base de água chamada de líquido amniótico.

Seguindo pelo leito deste rio de informações vislumbro o mundo e os conflitos existentes pela escassez de água . Em Israel, Jordânia e Palestina 5% da população do mundo sobrevivem com 1% da água disponível no Oriente Médio (e ainda há a guerra entre árabes e israelenses). A água pode contribuir para crises militares adicionais enquanto o aquecimento global continua tomando as manchetes dos jornais. Israel, os territórios palestinos e a Jordânia necessitam do rio Jordão, mas Israel controla o rio e corta suas fontes durante as épocas de escassez. E assim os palestinos sofrem com a falta de água imposta por Israel.

Os projetos da Turquia para construção de represas no rio Eufrates levaram o país à beira de um conflito com a Síria em 1998. Damasco acusa Ancara de usar sua fonte de água e a falta de água ocasionada pelo aquecimento global aumentará a pressão na região.

O rio Brahmaputra já causou tensão entre Índia e China e pode se tornar uma faísca para dois grandes exércitos do mundo. Em 2000, a Índia acusou a China de não compartilhar informações sobre o funcionamento do rio desde o Tibet. A falta destas informações evitou que os indianos pudessem se precaver por conta das inundações no nordeste da Índia e em Bangladesh. As propostas chinesas para desviar o rio também provocam mais discussões.

Na África, as tensões aumentaram entre Botswana, Namíbia e Angola em torno da vasta bacia de Okavango. As secas fizeram a Namíbia reativar projetos para um encanamento de 250 milhas para levar água à capital. Drenar o delta seria letal para comunidades locais e para o turismo. Sem a inundação anual do norte, os ’swamps’ encolherão e a água sangrará até o deserto de Kalahari.

O crescimento populacional no Egito, no Sudão e na Etiópia está ameaçando um conflito ao longo do rio mais comprido do mundo (há até bem pouco tempo, depois que os técnicos do INPE traçaram seu curso juntando todos os nomes que ele recebe pelo caminho o Amazonas passou a ser considerado o maior rio do mundo. Nem todos os geógrafos o consideram o maior rio, mas todos o consideram o maior em volume dágua – vide abaixo no rodapé do texto algumas explicações (*)) , o Nilo. A Etiópia está pressionando por uma parte maior da água azul do Nilo e o Egito, pelo outro lado, está preocupado com a parte branca do Nilo que corre através de Uganda e Sudão, e que poderia ser esgotado antes que alcance o deserto do Sinai. Está desenhada a confusão.

As inundações no Ganges (Índia) causadas pelo derretimento das geleiras do Himalaia chegam a Bangladesh o que aumenta a migração ilegal à Índia. Isto fez com que a Índia construísse uma imensa cerca na margem do rio na tentativa de obstruir os imigrantes. Mesmo assim cerca de 6 mil pessoas cruzam, todos os dias, ilegalmente, a margem do rio em direção à Índia.

No Brasil, a transposição de 1% das águas do Velho Chico que inevitavelmente iriam para o mar ainda é motivo de várias ações judiciais, radicalismos e até de greve de fome. Toda esta discussão esconde a grande razão do estado moribundo do rio que nada mais é do que o açoreamento do seu leito em razão da falta de política de gerenciamento do São Francisco e do desmatamento das suas margens. O projeto traria água a mais de 12 milhões de brasileiros e fixaria pelo menos 400 mil pessoas em suas terras, reduzindo o êxodo rural e os bolsões de miséria. Mesmo assim, o projeto capenga em um anda-pára sem-fim.

O litro d’água, proporcionalmente, já é mais caro que o da gasolina. Faça as contas!

Nove países dividem cerca de 60% das fontes renováveis de água doce do mundo. São eles em bilhões de metros cúbicos: Brasil (6.220), Rússia (4.059), Estados Unidos (3.760), Canadá (3.290), China (2.800), Indonésia (2.530), Índia (1.850), Colômbia (1.200), Peru (1.100) e os 15 países da União Européia(1.171).

Do lado pobre em água, estão: Kuwait e Bahrain (quase que totalmente seco), Malta, Gaza, Emirados Árabes, Líbia, Singapura, Jordânia, Israel e Chipre.

Os maiores consumidores de água (em uso virtual e direto) em km3 ao ano são: Índia (552), China (500), Estados Unidos (467), União Européia (245), Paquistão (242) e Rússia (136).

As mortes provocadas pelos problemas relacionados a água ou a falta dela não foram superados por nenhuma guerra que se tenha notícia. Cerca de 25 mil pessoas morrem diariamente, devido à má qualidade das águas que usam e tomam. Em um ano o número de óbitos chega a preocupantes 9.125.000 pessoas por ano. Em apenas dois anos este número supera a quantidade de mortos (19 milhões de pessoas) em toda a Primeira Guerra Mundial.

Os números são preocupantes, mas ainda há jeito. Existem muitos estudos e previsões com relação ao problema com a água. Nem todos merecem credibilidade, mas os dados existentes e formatados por agências sérias são, no mínimo, preocupantes e requerem mais atenção.

Existem várias propostas, inclusive a de criação de um selo azul de proteção da água. Mas ainda é apenas uma remota e despretensiosa proposta. O que temos de real é que é preciso proteger as nascentes e nesse campo, “o Brasil está em situação melhor do que a maioria dos países, por causa da qualidade de seus cientistas. Se as autoridades ouvirem os cientistas, o Brasil pode se preparar bem pro futuro”, diz o pesquisador Polioptero Martinez por ocaisão do Fórum Mundial da Água.

Cerca de 97.5% das águas do planeta são salobras. A maioria da água fresca está presa nas geleiras e glaciais. A necessidade básica recomendada de água por pessoa num dia é de 50 litros. Mas as pessoas podem ter qualidade de vida com aproximadamente 30 litros: 5 litros para alimento e bebida e uns outros 25 para a higiene. Alguns países usam menos de 10 litros de água por pessoa ao dia. Gâmbia usa 4.5; Mali, 8; Somália, 8.9; e Moçambique, 9.3. Em contraste, o cidadão médio dos Estados Unidos usa 500 litros de água por dia, e a média britânica é de 200 litros. Os países que são os maiores consumidores utilizam cerca de 8 litros para escovar os dentes, 10 a 35 litros para nivelar a descarga, e 100 a 200 litros para tomar banho. A população mundial consome 3500 km3 de água ao ano, o equivalente a um cubo de 15 km de cada lado. Desse volume, somente 8% são gastos no uso doméstico, 69% na irrigação e 23% na indústria. No Brasil se gasta 150 litros por habitante.

O Ouro Azul, como é chamada a água, está distribuída no planeta Terra da seguinte forma:

1.320.000.000 km³ (97%) são água do mar.

40.000.000 km³ (3%) são água doce.

25.000.000 km³ (1,8%) como gelo.

13.000.000 km³ (0,96%) como água subterrânea.

250.000 km³ (0,02%) em lagos e rios.

13.000 km³ (0,001%) como vapor de água.

No futuro, se nada for feito, a água será o recurso mais caro do mundo e o Brasil um alvo-fácil para inescrupulosos líderes mundiais.

O consumo de água engarrafada cresce em todo o mundo, há trinta anos. Atualmente, é considerado como sendo um dos setores mais lucrativos de toda a indústria de alimentos e bebidas, onde o consumo aumenta em 12% ao ano.A água engarrafada representa um volume de 89 bilhões de litros e está estimado em um valor de 25 bilhões de euros em todo mundo. Setenta e cinco por cento do mercado é dominado por produtores e empresas locais. Mais de metade (59%) da água engarrafada bebida no mundo é água purificada, os restantes (41%) consomem água de mina ou mineral. Enquanto que a água engarrafada se origina em fontes protegidas, como por exemplo, aquíferos no subsolo e nascentes, a água de torneira vem de rios e lagos. No Brasil a água de torneira é extraída do subsolo e em algumas cidades, a que sai da torneira tem características de minerais. Um quarto da água engarrafada em todo o mundo é consumida fora do país de origem e o transporte geralmente se dá por caminhões. Cerca de 75% da água produzida é consumida regionalmente. Este mercado também ajuda a poluir, pois uma grande parte da água consumida em garrafas gera lixo plástico que vai parar nos lixões sem qualquer tratamento ou reciclagem.

A água é sagrada para muitos povos e religiões. No caso dos cristãos, na Bíblia o termo água é citado 442 vezes e o batismo é feito com água. Judeus, muçulmanos, xintoístas e hindus possuem rituais de purificação feitos com água.No Brasil, Iara (Mãe D´água), Iemanjá( Rainha do Mar) e Nossa Senhora Aparecida( resgatada de um rio por pescadores e Padroeira do Brasil) são as divindades que cuidam de proteger o nosso Ouro Azul.

Ao decidir matar uma curiosidade minha a respeito de quanta água se gasta (e se haveria necessidade de gastar) para produzir um chip eu acabei me deparando com um cenário preocupante e também fascinante. Não encontrei nenhuma estatística confiável a respeito de quantos litros de água sejam necessários para se produzir um único computador, mas tirando uma média, podemos afirmar que não será menos que dois mil litros.

Resta pedir a trindade brasileira das águas (Iemanjá, Iara e Nossa Senhora Aparecida) que continuem a nos inspirar para proteger a fonte de toda a vida neste planeta azul, chamado Terra e assim torcer que cada um faça a sua parte, ainda que seja uma pequena parte, em benefício do Ouro Azul.

Como diz o cantor e compositor Beto Guedes, “A lição sabemos de cor. Só nos resta aprender”.

Fontes:Conselho Mundial da Água/WWF/G1/YouTube/Greenpeace/Fórum Mundial da Água/Terra Azul/panoramaecologia.blogspot.com /ONU/Revista Mundo e Missão/ Darfur-War of Water Documentário

(*)

O rio Amazonas é um grande rio situado no norte da América do Sul, ao centro da floresta amazônica. Maior rio da Terra, tanto em volume d’água quanto em comprimento (6.992,06 quilômetros de extensão), tem sua origem na nascente do rio Apurímac (alto da parte ocidental da cordilheira dos Andes), no sul do Peru, e deságua no Oceano Atlântico junto ao rio Tocantins no grande Delta do Amazonas, no norte brasileiro. Ao longo de seu percurso recebe no Peru os nomes de Apacheta, Lloqueta, Tunguragua, Marañón, Apurímac, Ene, Tambo, Ucayali e Amazonas (Peru); em território brasileiro entra com o nome de Solimões e finalmente em Manaus recebe o nome de Rio Amazonas até a foz no Oceano Atlântico.

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