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Dominando a motocicleta em baixas velocidades – Técnica do Deslocamento Visual

Imagem2Por Angelo Viana e Silvio Cimino, instrutores e proprietários da empresa TOP RIDER, especializada em programas de pilotagem e formação de motociclistas de alto desempenho. Para maiores informações acesse www.toprider.org.

Muito se fala sobre técnicas de retomada de aceleração, ângulos de tomada de curvas, inclinação, segurança sob velocidades, etc, e tais assuntos são pano de fundo para as mais variadas técnicas, dicas, e teorias. Entretanto, pouco se explora sobre as técnicas efetivas de manobrabilidade da motocicleta em baixas velocidades.

Sabemos que mais de 90% dos acidentes leves (famoso “tombar a moto”) decorre da falta de acuidade para dominar a máquina em velocidades reduzidas, onde se tem que tomar ações rápidas e precisas, lutando-se contra forças físicas (força centrípeta anulada, peso, resultante de equilíbrio, etc) que tendem a puxar a motocicleta para o movimento estacionário.

Deixando um pouco da física de lado, que por certo será explorada em artigo próprio, vamos falar de uma das técnicas definitivas para dominar sua motocicleta nas condições de baixa velocidade.

Antes disso, que tal conhecer um pouco da fisiologia do equilíbrio? Sabemos o que você está pensando: mas pra quê eu preciso conhecer aspectos médicos-corporais para dominar minha moto? Pois bem, saibam que a técnica definitiva passa pelo uso correto da cabeça e dos olhos durante o movimento, o que chamamos de “técnica do deslocamento visual”; e quando falamos “cabeça” não nos referimos a “mente”, mas do membro superior propriamente dito.

O equilíbrio corporal depende de um complexo controle efetuado pelo sistema nervoso central sobre músculos e articulações, o que chamamos de memória muscular fina, de tal forma que o corpo possa manter-se em determinadas posições sem ceder à força da gravidade ou ainda deslocar-se harmoniosamente resistindo à inércia dos movimentos, à força da gravidade, à força centrífuga, etc.

Para poder ordenar os devidos ajustes, o sistema nervoso central deve contar permanentemente com a informação precisa sobre a posição de cada uma das partes do nosso corpo. Esta informação provém de várias fontes. Por um lado o cérebro, através dos nervos, avaliando uma séria de sensores corporais, processa a informação sobre a situação do corpo no espaço e sobre a posição relativa de todas as partes do corpo. Por outro lado, a visão proporciona uma ideia global da situação do corpo relativamente ao espaço envolvente e pontos de referência de grande importância. Por último, tão valiosas como as fontes de informação anteriores são as que oferecem o aparelho do ouvido interno sobre a posição e os movimentos da cabeça.

ponte 1 (1)Toda a informação chega de forma constante ao encéfalo, em especial aos centros nervosos localizados no tronco cerebral e no cerebelo, onde é analisada automaticamente para que, a seguir, surjam as ordens correspondentes para os diversos músculos corporais, de modo a relaxarem ou contraírem, dependendo das necessidades.

Portanto fisiologicamente, sem os movimentos ampliados da cabeça e sem os estímulos visuais corretos fica muito difícil ativar os comandos musculares necessários nas manobras de baixa velocidade, que sobretudo demandam noção de espaço angulação corporal, e bom controle sobre os comandos finos da motocicleta (embreagem e acelerador).

O que queremos dizer, em outras palavras, é que mover a cabeça e os olhos para onde se quer ir proporciona a ativação muscular necessária a ampliação do equilíbrio e noção de espaço, tudo o que se precisa para realizar manobras em baixa velocidade.

Agora pense nisso na prática. Antes de entrarmos em nossa área (motociclismo de alto desempenho) queremos que você relembre e até realize aquele velho exercício que fazia quando criança, brincando de circo. Pegue uma vassoura, posicione-a com o cabo voltado para baixo e centralize o cabo no meio da sua mão (direita ou esquerda); a seguir, tente equilibrar a vassoura olhando para o centro da sua mão. Agora faça o mesmo olhando para cima, para a vassoura propriamente dita. O resultado é que ao olhar para baixo (centro da mão) ocorre o estímulo visual correto, porém o equilíbrio provocado pelo movimento da cabeça (para baixo) informa aos músculos que atuem de forma a derrubar a vassoura, já em contrapartida, olhar para cima desloca os mecanismos do equilíbrio em sintonia com o que se quer atingir (manter a vassoura equilibrada), compensando toda tentativa de queda da vassoura com movimentos rápidos da mão, corpo, tronco, etc, de forma que a vassoura permaneça equilibrada e vencendo a principal força atuante, a gravidade.

Logo, com a nossa motocicleta é a mesma coisa. Quando se realiza um movimento de baixa velocidade, por exemplo ao se tentar estacionar a moto, ou realizando um retorno de 180° (em inglês movimento U-Turn) em uma rua apertada ou estacionamento, o segredo é – simplesmente – voltar para a cabeça e olhos para onde se quer ir, ou seja, para local onde você pretende chegar ao realizar aquele movimento. Assim sendo, utilizando-se um exemplo mais comum no dia a dia, os U-Turns (retornos em 180°), o procedimento é simplesmente – e em termos gerais – realizar a meia volta entrando no movimento e já olhando para o outro lado onde se quer ir; mas precisamente, usando o exemplo de retorno em uma via (quando permitido, é claro), o procedimento exige que antes de tentarmos virar a moto acompanhando o movimento da roda ou o metro imediatamente à frente com os olhos, façamos justamente o contrário, olhando para o lado da via onde se quer ir, ou seja, virando a cabeça e olhando por sobre os ombros para a via (por cima do ombro direito ou esquerdo, dependendo de onde se quer ir).

A técnica se aplica a qualquer situação. Quando você enxergar um buraco ou imperfeição asfáltica na via e quiser desviar dela, nunca olhe para ela diretamente, confie na sua visão periférica e continue olhando para frente, na linha do horizonte (afinal é pra lá que você quer ir, não é!?), e o seu cérebro fará o trabalho, ativando o controle fino muscular e mandando estímulos para que seu corpo faça pequenos incrementos de movimento de forma a tirar a moto do caminho do perigo.

A propósito, quando usamos o termo “confie na sua visão”, queremos ampliar a expressão dizendo “confie no seu cérebro”; e é assim que funciona, bastando de agora por diante treinar a técnica do deslocamento da visão, movendo a cabeça e olhos para onde se quer ir, lembrando que olhar para o chão manda o estímulo ao cérebro de que é para lá que queremos ir, o que em hipótese nenhuma é verdade quando estamos pilotando nossas motocicletas.

 

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