Adeus, PC? É ruim de morrer, esse tal de ‘PC’!

É comum o mundo da tecnologia anunciar o fim de formatos quando da chegada de novos produtos. Mas nem sempre é assim. Em relação ao velho PC de guerra a coisa ainda não é definitiva apesar de muitos já o terem sentenciado à morte. O que existe de real nisso tudo é a queda da venda de PCs ano a ano no Brasil e o crescimento em vendas de netbooks, notebooks e smartphones.

Segundo relatório Setorial da ABINEE – Associação Brasileira da Indústria Eletro-Eletrônica – na área de Informática, o mercado de PCs totalizou 12 milhões de unidades em 2009, mesmo volume comercializado do ano anterior. Enquanto as vendas de desktops caíram 11% em 2009 na comparação com 2008 (de 7,70 milhões para 6,85 milhões de unidades), as vendas de notebooks, incluindo os netbooks, cresceram 20% (de 4,30 milhões para 5,15 milhões). Ocorreu durante o ano de 2009 uma rápida recuperação da área de Informática, cujos volumes trimestrais de vendas ficaram muito próximos dos observados em 2008. A retomada da atividade econômica, em março, está alavancando os negócios de bens de consumo, como computadores pessoais e telefones celulares. No mês de março, verificou-se ampliação nas vendas destes produtos, após dois meses de resultados modestos devido a costumeira retração dos consumidores, por conta de suas despesas com pagamento de impostos, como IPVA e IPTU, e materiais escolares, entre outros gastos.

Ainda segundo o clipping da ABINEE, de março deste ano, tomando como base a maior fabricante de computadores do país, a Positivo registrou um salto de 31,8 por cento nas vendas do primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado, devido as entregas para clientes governamentais. Até março, a empresa vendeu 425,7 mil computadores pessoais, contra 323,1 mil PCs um ano antes – segundo a prévia do trimestre divulgada pela empresa. O preço médio em reais caiu para 1.389 reais ante 1.409 reais em 2009, por conta da queda no valor médio de notebooks, de 7,6 por cento na comparação anual principalmente em função da taxa de câmbio. No total, a empresa vendeu 140,9 mil notebooks, 30,9 por cento a mais que em igual período de 2009 e 284,8 mil computadores de mesa (desktops), 32,2 por cento de crescimento.

A receita líquida total teve uma alta de 30,7 por cento, para 531,4 milhões de reais. O resultado de vendas foi positivamente influenciado pelo maior ritmo de entregas a clientes categoria governo, destacando uma alta de 109,7 por cento no número de entregas a clientes estatais, que chegaram a 108,9 mil unidades. A estimativa é que sejam entregues para o mercado de governo mais de 330 mil PCs em 2010, o que representaria uma alta de 131 por cento contra o observado em 2009. No varejo foram vendidos 298,8 mil computadores, alta de 25,9 por cento contra o primeiro trimestre do ano passado, um recorde para o período afirma a empresa. Na área corporativa, as vendas caíram 47 por cento ante os três primeiros meses de 2009, para 17,9 mil PCs. Apesar disso, o volume representa crescimento de 9,8 por cento sobre o quarto trimestre. A Positivo espera uma reversão no cenário à medida que melhora a perspectiva de investimento das empresas.

Pelo mundo os fabricantes asiáticos de chips anunciam novos resultados fortes e a recuperação do setor mundial de tecnologia que está se acelerando, com o estímulo da recuperação econômica aos investimentos empresariais e pessoais. A demanda superior à esperada por computadores pessoais e a produção limitada das empresas de menor porte resultaram em alta nos preços de chips de memória dynamic random access memory (DRAM) e NAND, o que beneficia líderes setoriais como Samsung Electronics, Hynix Semiconductor e Toshiba. Enquanto isso a Nokia reduziu em abril a estimativa de lucro para sua unidade de telefones na medida em que enfrenta dificuldades no mercado de aparelhos mais caros, fazendo suas ações despencarem. No mesmo mês a NOKIA declarou que a crescente tecnologia de câmeras em celulares deve transformar o sistema SLR de equipamentos convencionais, e até mesmo os profissionais, em obsoletos. A Nokia aposta que em menos de um ano, os telefones deverão gravar vídeos em alta definição e para que você possa transferi-los diretamente à sua televisão, segundo declarou a Nokia a Reuters. No mesmo mês a LG Display e a rival de menor porte AU Optronics sinalizaram uma recuperação robusta no setor de TVs com telas de cristal líquido (LCD) depois de superarem com folga as projeções de lucros trimestrais devido à forte procura por TVs de tela plana na China.

Apesar dos bons números do mercado, o velho PC está sim se transformando. O americano Todd Bradley (VP de computação pessoal da HP), afirmou em entrevista ao Portal Exame que a “era da informação fez com que os consumidores estabelecessem novas prioridades ao lidar com a tecnologia”. Para ele, as novas máquinas são centros de mídia que também vão revolucionar o consumo de conteúdo.

Mas existem outros fatores que estão deixando o velho PC de ‘alças-em-pé’. O primeiro deles está relacionado à mobilidade; o segundo ao preço; o terceiro ao fato de ‘primeiro computador’, o quarto ao novo perfil de usuário focado em redes sociais e por último o smartphone que proporciona acesso a-qualquer-hora-em-qualquer-lugar. Ano passado acompanhei uma reunião de um executivo da Intel quando na ocasião aconselhava a um lojista (por questão de ética profissional para com a empresa preservo os nomes) que não focasse na venda de netbooks, pois apesar da curva de vendas se mostrar extremamente favorável em volume de dinheiro, as margens de lucro acabavam por contribuir negativamente e no final o resultado seria deficitário. A observação era correta, pois para ter a mesma lucratividade teríam que vender duas vezes e meia a quantidade de notes e quase duas vezes a de desktops. A melhor solução ainda seria vender notebooks e desktops. Na reunião foi explicado ao lojista por que a Intel havia decidido trabalhar apenas com três linhas de processadores – Core i3, Core i5 e Core i7. Resumindo, seria por “ser mais fácil explicar ao consumidor e ele entender a diferença de aplicação para cada um deles no seu dia-a-dia”.

Analisando as planilhas de vendas (que é o que realmente interessa para quem vive do comércio) e a sua evolução em relação ao período anterior chegou-se a conclusão que seria necessário mudar a arrumação da loja colocando os netbooks em menor destaque que antes; tirá-lo da publicidade como promoção e focar na venda de notes e máquinas dimensionadas para entretenimento. Para nossa surpresa os nets não diminuíram seu ritmo de vendas, mas notes e desktops melhoraram com a abordagem, para este último, focada no entretenimento. Os notes vendiam mais pelo quesito capacidade, mobilidade e multiaplicações inclusive jogar e assistir filmes conectados a LCDs/Plasma/Led/Olead, projetado na parede ou na tela do próprio note. Uma coisa que percebemos foi que o tamanho do computador está relacionado ao conteúdo que se deseja. Por exemplo – smartphones são mini twiterdecks – apenas o necessário e urgente. Os notebooks a privacidade – o one-to-one – e os desktops para todo mundo e para a casa também. Mesmo assim, as vendas oscilam sem crescer muito, pois um upgrade (para os usuários leigos ou não avançados) resolve na maioria das vezes, sem a necessidade de comprar um totalmente novo. Já para o segmento corporativo a coisa também muda e o uso de tipos mais práticos como os desktops virtuais acaba por sepultar os desktops que ficavam embaixo das mesas e sempre estavam a exigir manutenção dos técnicos de informática.

Os desktops de antes não precisavam ser bonitos. Bastavam ser funcionais. Hoje precisam bem mais que isso – exigem os consumidores desktops com telas grandes (muitos com até mais de uma tela) e sensíveis ao toque e que proporcionem uma experiência ampla que vai muito além de simplesmente jogar ou ler notícias na internet, por exemplo. Sim, o mercado está mudando, mas apesar de netbooks, smartphones e notebooks, os desktops ainda terão seu lugar na casa por um bom tempo. É perfeitamente possível encontrar em uma casa de Classe C ou Classe Média uma família usando um desktop, um note, um netbook e smartphones. O foco será no hardware como ferramenta de conveniência e não mais como ‘um-pra-tudo’ como era antigamente – é a chamada interconexão. É essa a tendência que vai determinar o destino de preferência ou não por vários modelos de máquinas sejam elas smartphones, nets, notes ou desks. Segundo o VP da HP, Todd Bradley, “Os netbooks fixaram um novo patamar de preços para os notebooks, em torno de 300 dólares, e estabeleceram um ciclo mais curto de troca de PCs”. Sim, é verdade. Mas os nets tem seu espaço bem definido. Uma comparação que gosto de fazer é com carros. Se você deseja um carro econômico que sirva para ir ao supermercado e viagens curtas com no máximo três pessoas vai escolher um carro popular, mas se tem família grande o carro é outro. Se desejar mais esportividade e desempenho vai escolher um carro mais potente e para duas pessoas. Para rodar fora-de-estrada a mesma coisa.

Existe mercado para todos e o mesmo está acontecendo com o segmento de computadores pessoais. Os carros e os PCs estão cada vez mais parecidos na sua forma de vender. Se você deseja uma Ferrari vai ter que esperar ser montada. A mesma coisa vai acontecer com um super PC. A visão da HP em relação a isso está correta. Para ela “o consumidor quer um computador que reflita sua personalidade/utilidade e ele tem cobrado isso da indústria. O design é importante, mas o consumidor também considera outros atributos na compra, que incluem até o uso de embalagem sustentável”. Já a Motorola aposta em conteúdo e na interconexão para incluir seus smartphones na lista de desejos dos clientes. O maior desafio a ser enfrentado pelos fabricantes é, segundo o executivo da HP, Todd Bradley, “tornar acessíveis para o consumidor-padrão (leia-se Classe C, grifo nosso) os PCs com tela 3D”. E completa: “O desafio é barateá-los em todas as regiões do mundo”. Uma coisa é certa: no mercado de PCs, seja ele de que tamanho for, não existe essa coisa de emergentes. Com a internet, quem pode compra e independe de país, cidade e até de bairro.

Acredito que será a interconexão que fará a verdadeira e profunda mudança nos formatos que os hardwares deverão ter. A pesquisa realizada pela Motorola que analisei aqui mostra que tá tudo ainda meio que embolado. Oito em cada dez consumidores (77%) reconhecem que a tecnologia móvel integrou sua vida no âmbito pessoal e profissional, enquanto dois terços (66%) admitem ter conseguido proporcionar equilíbrio para sua vida. A pesquisa orientada a jovens do novo milênio, realizada pela Motorola em 2008, apontou que 83% desses indivíduos exercem uma grande influência nas decisões dos pais com relação à contratação de serviços de televisão (Fonte: Motorola Home and Networks Mobility Millennial White Paper, 2008). E aqui uma surpresa: os resultados apurados pelo Barômetro de Consumo de Mídia 2010 demonstram que os pais também possuem influência nas decisões tecnológicas dos filhos, na mesma ou em maior medida. Do total, 33% dos que influem no mundo da tecnologia são baby boomers, e 39% pertencem à Geração X. Os jovens do novo milênio (99%), os da Geração X (99%) e os baby boomers (93%) foram consultados a respeito dos dispositivos que gostariam de utilizar para acessar a mídia social, 70% responderam que seria por meio da televisão, e os computadores (71%) e os telefones móveis (84%).

Com relação a conteúdo, entre os entrevistados do Reino Unido, 87% compartilham informações regularmente entre seus dispositivos, enquanto estão na rua e em casa. Já 70% assistem à televisão semanalmente, número maior que a média europeia, de 62%. No entanto, a pesquisa demonstrou um crescimento no número de telespectadores daquele país que acessam conteúdos em outros meios: 52% assistem a vídeos ao vivo pela internet; 34% veem TV sob demanda; e 29% fazem downloads de vídeos da internet ao menos uma vez por semana. Isso demonstra a tendência da procura por diversas fontes. Outro dado levantado pela pesquisa é que mais da metade dos entrevistados no Reino Unido mostrou interesse nas aplicações para TV que permitem personalização de suas experiências nesse meio. Mesmo assim, 69% afirmaram se sentir frustrados por ter de buscar, entre tantas opções, aquilo que é de seu interesse. Quem apostou no fim da TV também errou. Ela continua viva e vendendo muito. Aliás, erraram já no seu lançamento quando o The New York Times publicou matéria onde na análise de um repórter especializado – “a Televisão não daria certo”.

Em um outro artigo começo com o que está na história para questionar visões estanques – Quando August Lumiére inventou o cinema já foi logo dizendo (sim, ele mesmo) que ele não teria futuro comercial. H.M.Warner, co-fundador da Warner Brothers em 1927 largou essa pérola o que mostrava que estava muito ‘antenado’ com as tendências de mercado: “Quem diabos deseja ouvir atores falando?”. Alguns anos depois, em 19 de Abril de 1939, por ocasião da apresentação de um aparelho de TV nos EUA, o The New York Times destacou que a “Televisão não dará certo, pois a população americana não ia ‘agüentar’ ficar muito tempo olhando para aquela caixa!”… Mary Somerville, pioneira em radiodifusão educacional, em 1948 deixou outra citação apocalíptica: “A televisão não irá durar. É uma tempestade num copo d’água!” disse. Eu confesso a vocês leitores que sou meio cético quando se trata de previsões apocalípticas ou sentencialistas que rotulam coisas e pessoas na forma de preconceito. Vejamos um pouco mais da história – Pasteur formou-se com nota medíocre em Química; Einstein foi reprovado na Academia Politécnica; Darwin não conseguiu entrar na Faculdade de Medicina de Cambridge e Thomas Edson “era um garoto confuso da cabeça, que não conseguia aprender”. Esta frase foi dita por ninguém menos que o reverendo Engle, professor da única sala de aula da cidadezinha de Milan, no estado americano de Ohio. Beethoven também foi enquadrado dessa forma. Segundo seu professor de música “ele não tinha futuro como compositor”. E Tesla seria um cientista maluco que queria dominar o mundo e foi derrotado pelo Superman. Outro professor, Erasmos Wilson da Universidade de Oxford, disse certa vez que quando a Exposição de Paris fechasse, “ninguém mais iria ouvir falar de energia elétrica”. Felizmente, para nós, estavam todos errados. Hoje corremos o mesmo risco de precipitação em apostar no fim de velhas ou novas tecnologias, sendo um dos mais novos exemplos o 3D.


Seu Lunga!

Não acredito na morte do formato desktop e muito menos do PC (como queiram), mas sim, na sua renovação, devidamente adequado às novas exigências dos consumidores. E isso o velho e bom PC já vem fazendo sem reclamar. Na realidade a base de um PC é um processador, memória, memória não volátil(HD, memory cards etc)) e uma placa-mãe. O resto é periférico e acessório. Enquanto esta base não mudar o bom e velho PC vai continuar existindo, mesmo que seja com outro nome. De certo mesmo, como diria o famigerado cearense ‘Seu Lunga’: – “O que eu sei, rapaz, é que só existe a ‘conspiração cearense’ para dominar o mundo! O resto é coisa desse povo da televisão, meu filho! ‘Bixim’ ruim de morrer, esse PC, viu ‘maxurréi’! Mas me diga… o que é mesmo esse tal de PC?”

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