Ciberbullying: Sarcasmo e superficialidade nos relacionamentos virtuais

O assunto é muito grave!!

A Liberdade de expressão é algo que precisa ser defendido até o extremo, mas existem limites que precisam ser respeitados. Já diz um ditado que ‘a sua liberdade começa onde termina a minha’. É certo. Isso é convivência. Alguém disse certa vez que ‘ defenderei com a minha vida o seu direito de opinar, mesmo que não concorde com você’. O que muitas pessoas confundem quando se trata de liberdade de expressão é quando essa linha tênue é ultrapassada. Aqui dá-se causa ao direito e a responsabilidade pela opinião emitida. O Orkut é fascinante por isso. Ao mergulhar nele você descobre como essas coisas convivem e se multiplicam tanto de forma correta como da forma inconsequente. A liberdade de expressão é sadia, mas a libertinagem de expressão, na maioria das vezes esconde por trás algum tipo de distúrbio. Um dia desses, recebo um e-mail de um leitor me convidando a conhecer um lado do Orkut onde essa linha é ultrapassada. Mergulhei na pesquisa e conheci um lado sádico e irresponsável que prolifera na internet e brinca de maneira maldosa com casos que comoveram a opinião pública.

Recentemente, nos EUA, uma criança com problemas de autoestima cometeu suicídio por conta de um fake recheado de maldades temperados com um sentimento de vingança por uma amizade desfeita. Outro matou a ex-mulher por ela ter apenas mudado o status de casada para solteira depois que se separaram. Mas existem outras coisas que deixariam qualquer um de queixo caído.

No Orkut, há comunidades virtuais dedicadas a tratar o assunto de maneira cruel como, por exemplo, uma que cita que a menina Isabella ‘não tomava a bebida energética que tinha o poder de dar asas’, fazendo assim alusão ao fato de que ela não cairia da janela de onde foi jogada.

A iniciativa de fazer a comunidade, criada pouco depois da morte da menina, em 29 de março, é explicada por uma das participantes que defende o caso como forma de “protesto”. Segundo está no texto de apresentação da comunidade, que tem dezenas de pessoas, um membro da comunidade diz:”-…Pessoinhas, o objetivo da comunidade, ao meu ver, e pelo que eu observei de diversas pessoas, NÃO é zombar da morte da coitada, e sim protestar pelo descaso de muitas outras coisas (piores) que ninguém liga, pois o mesmo não ganha destaque da mídia, da imprensa, e etc”-escreve uma integrante anônima. Ao escolher o anonimato a reivindicação do direito de liberdade de expressão fica prejudicada e aqui não quero julgar a validade ou não do protesto.

Outro caso que abalou o Brasil em fevereiro de 2007 foi o do menino João Hélio Fernandes Vieites, de apenas seis anos, que morreu após ser arrastado por mais de sete quilômetros, por marginais que roubaram o veículo da sua família em assalto, preso ao cinto de segurança do carro onde estava, no bairro Oswaldo Cruz, Zona Norte do Rio. Para ele também foi criada uma comunidade de gosto no mínimo duvidoso: “João Hélio arrastou pouco”. O trauma dessa família ao perder o filho já é enorme. Nas circunstâncias como ocorreu é ainda pior e para completar alguém tem a idéia de criar uma comunidade que acredita que ser arrastado por sete quilômetros pelas ruas da cidade ‘ainda foi pouco’.

Além das comunidades em si, surpreende a quantidade de participantes que a integram. Até agora, eram mais de 1.500 pessoas associadas. O responsável pela comunidade é irônico ao defini-la:”- Não há qualquer intenção em afrontar a memória dessa criança, apenas constatamos um fato: 7 km é pouco.”

Outra comunidade de igual crueldade é a “Santa Suzane Richthofen” que defende a conduta da jovem que foi condenada a 39 anos e seis meses de prisão pela morte dos pais, Marísia e Manfred von Richthofen, em outubro de 2002, possui mais de 1.300 membros. Na comunidade existem frases do tipo “condenada injustamente” e “protetora dos inocentes” em defesa da moça.

Atos como esses ilustram os dois lados de uma mesma sociedade: a que assiste atenta ao andamento das apurações desses crimes e a que é capaz de brincar de maneira sarcástica com a situação sem pensar que poderiam ser elas a estarem no lugar das famílias e muito pior sem pelo menos refletir sobre significado do que estão publicando.

A psicóloga Valquíria Camargo, destaca que a atitude das pessoas que criam comunidades como essas ou que se vinculam a elas “demonstram um narcisismo, onde não há o reconhecimento do outro como ser humano”.Ainda segundo a psicóloga, “o fato do meio de comunicação ser a internet, onde a identidade não é revelada por completo, as pessoas demonstram a sua falta de ética e de solidariedade mais facilmente.Entretanto essas atitudes são cruéis, pois qualquer pessoa com um mínimo de noção não participaria dessas comunidades. Essa é uma forma deles fazerem parte da sociedade do espetáculo. Eles ficam inseridos em uma mídia que tem toda a atenção voltada para o caso”-conclui Valquíria.

Recentemente outra comunidade foi criada para defender Lindemberg Alves. A comunidade “Eu defendo Lindemberg” tinha até a hora que capturei em print screen , quase 400 membros e outra sub-comunidade onde estão listados os ‘Seguidores de Lindemberg’. As duas comunidades divulgam boas notícias sobre o assassino e festejam a possibilidade dele responder ao processo em liberdade. Em vários scraps outros membros lançam comentários, sem comprovação, a respeito da reputação de Nayara e Eloá, inclusive algumas meninas, aplaudem o ato destemperado de Lindemberg Alves.

Um outro estudo tenta teorizar as razões deste comportamento atribuindo ao excesso de conectividade a explicação para tantos comportamentos sádicos e frívolos. Segundo o estudo a internet, os celulares e os demais recursos tecnológicos facilitam a vida de todas as pessoas. Porém, o uso excessivo de meios não pessoais pode interferir nos relacionamentos afetivos. Segundo Laila Pincelli, psicóloga especializada em relacionamentos familiares e de casal “de modo geral, as relações hoje começam e terminam com grande rapidez e enorme imprevisibilidade”, constata. “Com pouco contato pessoal, as pessoas ficam desorientadas e inseguras quanto à força das relações e ao que deveriam esperar delas”, diz.

Para ela os meios virtuais podem gerar certa banalidade e superficialidade nos relacionamentos e nos sentimentos. Mesmo entre os que se conhecem pessoalmente, a relação passa a ser mais virtual que física. É fácil, literalmente, deletar alguém que não lhe dá atenção. Comodamente, as pessoas esperam sempre pela atitude e iniciativa do outro. No fundo, elas gostariam de amadurecer a relação, mas nunca dão o primeiro passo. Não é novidade em casas onde existem vários computadores as pessoas se comunicarem via MSN estando a apenas alguns metros de distância. Quando colocadas frente-a-frente quase nunca conversam.

Laila alerta também que a comunicação virtual dá margem a interpretações ambíguas e, muitas vezes, a mal-entendidos. “Fica-se na dúvida entre o que é virtual e o que é real. O que se supõe ser desinteresse por parte do outro – e muitas vezes é – gera ansiedade e distanciamento. O contrário também pode acontecer: a ilusão e a expectativa por conhecer alguém de maneira mais madura”.

A psicóloga menciona casos em que, inicialmente, as pessoas se conhecem pessoalmente e depois estabelecem conexão virtual e, muitas vezes, não avançam. Isso ocorre, com a mesma frequência, tanto da parte dos homens como das mulheres, e em qualquer idade. Mas essa frivolidade é mais intensa na adolescência e até os 20 e poucos anos, mas não tem idade para acontecer. As pessoas estão cada vez mais imediatistas e não dão nem tempo de amadurecer uma relação, por pura falta de empenho ou de paciência para ver o que pode acontecer.

Essas atitudes, na avaliação da psicóloga, não são conscientes. Para ela, com a frequência de convívios virtuais, perde-se o jogo de cintura do frente-a-frente. Assim se expõem menos, e isso reduz as chances de uma sequência ao relacionamento. Além disso, fica mais fácil fantasiar e, de certa forma, enganar o outro. Ao mesmo tempo, relacionar-se cara-a-cara torna-se um risco e traz medo de eventuais frustrações.

Hoje em dia, são muito comuns as ‘relações de conveniência’, nas quais amigos concordam em ‘ficar’ de vez em quando. “Nesse tipo de vínculo, não existem exigências, cobranças ou regras. Há um acordo mútuo que dispensa compromissos ou preocupações. Porém, mesmo nesses casos, um dos dois pode ter um sentimento diferente, embora não se leve isso em consideração”.

Da forma superficial e banal com que são tratados os relacionamentos, as pessoas não se preocupam com o que podem provocar nas outras e nem com seus sentimentos. “A relação se torna frágil e pode se romper a qualquer momento”, adverte Laila. A soma de todos estes problemas pode explicar as atitudes expressas em algumas das comunidades ou no descambar de atitudes extremas como algumas que foram tomadas baseadas no cyberciúme.

Certo ou errado, válidas ou não, as teorias podem não explicar totalmente tudo que acontece com as pessoas quando elas estão no modo virtual, mas já é um bom alerta para que estudos possam ser mais aprofundados.

Como disse, a liberdade de expressão é algo para ser defendido até mesmo com a própria vida, mas é necessário também definir o limite entre a ética e a doença, cujo primeiro sintoma é a libertinagem de expressão que traz consigo o sadismo e a intolerância.

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