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Mulheres: conheça aquelas que ganham a vida sobre duas rodas

Muitas mulheres trocaram a garupa pelo guidão das motos nos últimos anos, como mostram os dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Em 2017, 33% dos habilitados na categoria “A” eram mulheres, ou seja, um em cada três motociclistas é do sexo feminino.

Muitas mulheres descobriram o prazer de guiar uma moto e viajar. Algumas viram nas motos e scooters apenas um meio de locomoção econômico para fugir do trânsito nas grandes cidades; outras acabam usando a moto como ferramenta de trabalho. Mas há algumas “privilegiadas” que conseguiram unir a paixão com a profissão. São mulheres que ganham a vida em duas rodas. Conheça algumas delas.

Técnica e boa de guidão
Quem comprou uma BMW há pelo menos dois anos em uma concessionária em São Paulo, pode ter recebido sua moto das mãos de Tatiane Paze. Ela foi responsável pela entrega técnica de motocicletas BMW nas principais concessionárias da marca alemã na capital paulista. Amante das motos, Tatiane pilota há 19 anos e já teve diversos modelos entre elas as BMW F 800R, K 1300R e a R 1200 GS. Segundo ela, o gosto pelo conhecimento técnico a levou a esmiuçar o Manual do Proprietário de suas motos e saber tudo sobre elas. “São dezenas de regulagens e funções em uma moto e conhecê-las a fundo exige paciência e curiosidade”.

A curiosidade levou Tatiane, 36 anos e formada em eventos, a também estudar mecânica de motos no Senai e trabalhar em uma concessionária. “Muitas vezes é preciso mais de uma hora para explicar todas as funções ao comprador”. Ela lembra que o painel da R 1200 GS, por exemplo, oferece dezenas de informações e pode ser personalizado pelo usuário. O conhecimento e o fato de pilotar bem ajudaram Tatiane a ser uma das instrutoras do BMW Rider Experience, treinamento de pilotagem para clientes da marca.

O fato de ser mulher ainda gera preconceito em alguns consumidores, mas a medida que Tatiane mostra seus conhecimentos a desconfiança se transforma em admiração. “Alguns já me disseram que, no começo, estranhavam o fato de ser uma mulher entregando a moto, mas depois de receber as instruções estavam surpresos e felizes com o tratamento e as informações recebidas” afirma Tatiane que, além de trabalhar com motos, viaja bastante pelo Brasil e América do Sul. De moto, é claro.

Vocação para ensinar
Por influência do pai, Jaqueline Poltronieri apaixonou-se cedo pelas duas rodas. “Aos 6 anos comecei a pilotar as motinhos de motocross”, relembra. E nunca mais parou. Além de se divertir nas trilhas e pistas de terra, a jovem paulista de Indaiatuba também usava moto para se locomover pela cidade, ir à escola, faculdade…

Apesar da paixão precoce por motos, nunca havia pensando em trabalhar com isso. “Sempre gostei de ensinar, sonhava em ser professora”, garante Jaqueline, hoje com 27 anos e formada em Administração de Empresas. A vaga de instrutora no Centro Educacional do Trânsito Honda (CETH) em Indaiatuba, interior de São Paulo, foi a chance de unir vocação e paixão.

Desde 2011, Jaque, como é conhecida, é instrutora do CETH. Atualmente, ela ministra cursos e treinamentos on-road e off-road, é claro, para iniciantes e motociclistas mais experientes. “O mais desafiador são os grupos da Rocam (Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas) da Polícia Militar de São Paulo. Eles ficam com o pé atrás por eu ser mulher e também trazem muitos ‘vícios’ negativos de pilotagem”, conta. Mas, assim que veem sua habilidade, principalmente no fora-de-estrada, baixam a guarda e aprendem dicas importantes com a piloto que hoje acelera uma Honda CRF 250R nas horas vagas. “Nesses 7 anos aqui, evolui muito e aprendi a falar melhor em público, mas deixei um pouco as competições de lado”, lamenta.

Sua paixão pelas motos também incentivou outras mulheres da família a se tornarem motociclistas. “Hoje já somos cinco: eu, minhas duas irmãs e minhas primas”, comemora.

De volta para a escola
Após ficar desempregada e trancar a matrícula na faculdade de Educação Física, a secretária Letícia Fernandes abriu os olhos para uma nova profissão. “Eu sempre gostei de andar de moto e uni o útil ao agradável”, conta a jovem que, há pouco mais de um ano, trabalha diariamente como mototaxista nas ruas de Atibaia (SP). Usando uma Honda CG 160 Fan Letícia mantém uma rotina que começa às seis da manhã e se estende até as sete da noite.

Ela é uma das poucas mototaxistas da cidade, uma profissão majoritariamente masculina. Apesar disso ela não se intimida em levar homens ou mulheres. “O que mais exige cuidado são as pessoas acima do peso, pois desequilibram a moto”, conta a simpática profissional de 21 anos. Infelizmente, nem tudo são flores em sua profissão, os acidentes e sustos também existem. “Já cai uma vez por culpa de uma mancha de óleo e outra vez um carro fez a conversão proibida e me derrubou”.

Apesar dos percalços, ela consegue o suficiente para se manter e tem um cuidado especial com sua moto. “Quem faz a manutenção dela é meu marido, ele é mecânico”. A extensa jornada diária pode até ser cansativa, mas é o bastante para que Letícia volte a sonhar. “Este ano retorno para a faculdade, quero viver da atividade física, pois é o que amo. Graças à moto e aos passageiros posso voltar a estudar”.


“Balada para mim é ir para a trilha”
Rildo sempre dizia à esposa Cleudiva que daria uma moto de trilha para o primeiro filho do casal. Até que veio a primogênita Bárbara NevesApaixonado por off-road, Rildo não se incomodou. Aos quatro anos, Bárbara ganhou a primeira moto do pai. “Aquelas cinquentinhas de motocross, não tinha nem câmbio. Era só acelerar”, recorda Bárbara que, desde cedo, acompanhava o pai nas trilhas de Goiás. Até que, em um Dia das Crianças, os pais orgulhosos revelaram a todos na escola a paixão da filha pelo motociclismo fora-de-estrada.

Todos os meninos começaram a fazer piada e tirar sarro de mim. Diziam que não era coisa de menina”, lamenta Bárbara. O bullying a afastou das motos por algum tempo, mas aos 12 anos, ao ver uma menina em uma corrida de motocross, falou para o pai: “quero andar de moto”. Estava no sangue.

Aos 13 anos, ganhou uma Yamaha TTR 125 toda personalizada, com seu nome e o numeral 116, que carrega até hoje. “Aí os tempos já eram outros e todos na escola achavam legal”, conta. Desde então, passou a competir no Enduro. Em 2014, foi convidada a integrar a equipe do ex-piloto mineiro, Felipe Zanol, e passou a competir profissionalmente.

“Eu gosto de trilha, de superar obstáculos. Não sou muito fã de motocross, de velocidade”, conta Babi, hoje com 17 anos e atual campeã brasileira de Enduro FIM. Hiperativa, como ela mesmo se descreve, treina quase que diariamente a parte física e, nos finais de semana, anda com a moto. “Não sou de sair de balada, dormir tarde. Prefiro ir para trilha com meu pai e meus amigos. Isso é diversão”, diz a jovem. Mas, para se divertir, tem que estudar. “Se eu tiro nota baixa, meus pais são super rigorosos, tiram a moto de mim. Já perdi um campeonato porque fui mal na prova e meu pai não deixou eu andar”.

Neste ano, já disputou uma prova com sua Honda CRF 230. Ficou em primeiro entre as mulheres, mas foi a segunda colocada na categoria para motos nacionais. “Não gosto de perder. Sou muito competitiva”, reclama a piloto goiana. Para este ano, Bárbara Neves tem como meta participar da equipe brasileira no Enduro Internacional dos Seis Dias, espécie de Olímpiada da modalidade, que acontecerá no Chile, em novembro. “Meu sonho também é disputar as provas de Hard Enduro”, referindo-se à competição que se caracteriza pelas trilhas e obstáculos extremamente difíceis.

Entregas com bom-humor e vaidade
número de motoboys em São Paulo supera os 200 mil trabalhadores e, entre eles, existem muitas mulheres. Esse é o caso da motogirl Joyce Cristina Santos Gregório que trabalha há sete anos na profissão. Sua rotina é moldada pela eterna correria contra a distância e os congestionamentos da capital paulista para realizar as entregas no menor tempo possível.

Nessa correria ela sofreu um acidente que mostra as agruras dessa profissão. Há pouco menos de um mês, Joyce desmaiou sobre sua moto e acabou se acidentando. Por sorte não houve ferimentos graves, mas o motivo para o desmaio é bem sério: ela estava desidratada. “Na loucura das entregas esquecia de me alimentar e beber água, agora estou atenta a isso” relata a motogirl que percorre até 80 km por dia na cidade ao guidão de sua Yamaha Factor 125.

Embora seja bem-humorada, algumas coisas a aborrecem “Não suporto a falta de respeito entre os motoboys que acham que nós mulheres não somos capazes de realizar as tarefas”. Fora isso, ela afirma que a convivência com os colegas de profissão é bem legal.

Joyce é muito vaidosa e se preocupa com a pele e os cabelos “batom para hidratar os lábios, filtro solar para proteger as mãos e touca são fundamentais”, ensina ela. Além de rodar na cidade, Joyce também gosta de viajar e diz que seu maior medo é a falta de atenção dos motoristas.

Infomoto

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