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MOTOCLUBES – Entre anjos e demônios

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O que é o motociclista? Cada um tem a sua própria definição, mas uma que é aceita por todos diz ser ‘aquele que pilota motocicletas’. Na filosofia motociclística podemos afirmar que ser um motociclista é ser amante das viagens, das estradas; gostar de fazer amigos. Por outro lado, a rebeldia e a busca da liberdade e todos os sentimentos que a envolvem também formam o conceito de motociclísta. Além disso, atualmente, há ainda o espírito de irmandade, fraternidade os quais conduziram para um novo motociclísta que é aquele também voltado para as ações filantrópicas.

Há motoclube para todos os gostos. Porém o motociclismo atrelado ao motoclubismo está adquirindo formatos de torcida de times de futebol a ponto da violência existente nos Estados Unidos da América estar sendo importada para cá. Em vez de ser um estilo de vida, em alguns casos, vira um caso de polícia.

Vale destacar que aqui, no Brasil, a nossa miscigenação estimulou a tolerância com as diferenças. Mesmo que se reprove e torça o nariz para cor e sexo, aqui o profano e o sagrado são vizinhos e não se matam. É possível ver sinagogas na mesma rua das mesquitas e ninguém joga bomba um no outro. É comum ter terreiros de candomblé próximos a igrejas evangélicas e ninguém morre por isso. As brigas que acontecem entre raças fora do Brasil, aqui perdem força. Enfim, se não fosse a desgraça da classe política brasileira a tirar a nossa paz e a violência reinante nas grandes cidades fruto da ausência do Estado, o Brasil seria o melhor lugar do mundo para se viver.

Há anos o motoclubismo no Brasil vivia em paz. Os mais diversos brasões conviviam em total respeito uns com os outros e a sociedade começava a ver em nós motociclistas um grupo de pessoas que oferecia respeito e não medo. Mas esta calma vem sendo abalada por recentes casos de violência que chegaram a produzir mortes.

Em Ponta Grossa (PR), em 12 de julho de 2015, três motociclistas morreram e outros dois foram feridos em razão de uma briga ocorrida em uma festa de São João entre motoclubes. Pouco mais de um mês depois foi a vez de Fortaleza (CE) passar por uma situação semelhante quando um briga de trânsito entre um motorista de um carro e um motociclista quase terminou em linchamento. O motorista se envolveu em uma briga com quase quarenta motociclistas do Hells Angels MC que aqui estavam a passeio. As imagens em vídeo mostraram que o motorista quase foi linchado e morto não fosse a intervenção de populares. No mesmo fim de semana outro incidente ocorreu em Fortaleza também envolvendo motoclube, mas sem grandes prejuízos.

Independente de quem fez, o importante neste artigo é tratar o por quê de tudo isso. A semelhança entre estes casos é que Fortaleza teve a sua primeira experiência negativa de outras que com certeza ainda novamente acontecerão. Mas o motoclubismo não é violento no seu todo e este histórico de violência o Brasil ainda não tem como acontece lá fora há anos.

Desconhecimento de causa

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Boa parte dos motoclubistas sabe pouco ou quase nada sobre o que defendem e professam. No Brasil, contamos nos dedos das mãos os motoclubes que possuem estatuto e sequer estatuto registrado em cartório. Menos ainda os que possuem CNPJ. A maioria sequer existe e legalmente não são nada. Fisicamente possuem apenas um patch bordado às costas o qual nem é registrado em nome do MC e as recomendações e regras são totalmente orais. Alguns são cópias desautorizadas de motoclubes estrangeiros. Então, falar de motoclubismo de raiz e de tradição no Brasil ainda é bem utópico apesar de termos um dos mais antigos motoclubes do mundo.

No Brasil a primeira associação foi fundada em 1927 – o Moto Club do Brasil sediado na rua Ceará no estado do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, mais precisamente em 1932, surgiu o Motoclube de Campos. De acordo com a BBC de Londres “Clubes” de motociclistas existem nos EUA desde 1930, reunindo milhares de apaixonados por motos. No meio dessa gama de apaixonados existem aqueles que descambam para o crime – são conhecidos nos EUA como as gangues de motociclistas.

O FBI e as gangues de motociclistas

Sons of Silence2Segundo um estudo do FBI, a polícia federal americana, existem mais de 300 motoclubes dedicados exclusivamente a atividades criminosas, que vão do tráfico de drogas e armas a extorsão e lavagem de dinheiro. O Departamento de Justiça dos EUA lista oito delas como organizações extremamente sofisticadas e perigosas. E a lista inclui a Bandidos como uma das gangues que esteve envolvida no tiroteio em Waco, Texas (USA) onde morreram nove pessoas.

Segundo o FBI, algumas organizações têm contingente que não chega a 10 pessoas. Outras, como o Hell’s Angels, um dos mais famosos e polêmicos grupos de motociclistas do mundo, contam com milhares de membros em dezenas de países – quase um exército. Outro estudo publicado em 2013 pelo FBI mostrava, curiosamente, o Estado americano do Texas, antes das mortes em Waco, como uma área relativamente segura em termos de atividades mais intensas de gangues de motociclistas.

De 1% a 2,5%

Ainda de acordo com as autoridades americanas, apenas 2,5% de integrantes de grupos criminais organizados nos EUA estão nas gangues de motociclistas, mas uma em cada 10 jurisdições policiais do país consideram suas atividades uma séria ameaça para a seguranças de suas regiões.

O número 2,5% reflete um crescimento forte em relação ao que aconteceu em Hollister, Califórnia (EUA) em 4 de julho de 1947. Antes eram apenas 1% dos motoclubes que digamos era fora-da-lei.

1947 – Hollister, CA – USA

motoclubes-conheca-um-pouco-da-historia-dos-motoclubes-8O incidente ocorrido em 04 de julho de 1947 em Hollister, Califórnia (USA) pode ser atribuído a um erro de cobertura de imprensa e a um texto sensacionalista que tinha como objetivo vender mais jornais (prática comum à época). De acordo com relatos, Barney Peterson, um fotógrafo do San Francisco Chronicle, publicou a foto de um motociclista bêbado equilibrando-se precariamente sobre uma motocicleta Harley-Davidson, cercado por cascos de cerveja quebrados e segurando uma cerveja em cada mão com a seguinte manchete: “E assim, a América”

O San Francisco Chronicle exagerou quando, no artigo, afirmava que “motociclistas realizavam competições em todas as ruas e entravam com suas motocicletas dentro de bares e restaurantes”. Para piorar este episódio a revista utilizou palavras como “terrorismo” e “pandemônio”. Também afirmavam que as mulheres que acompanhavam os motociclistas eram qualquer coisa, menos “senhoritas americanas”.

O artigo serviu para insuflar os ânimos na região e logo apareceram os primeiros desentendimentos que resultaram até em morte. A revista Life, em 21 de julho de 1947, aproveitando o momento, publicou um artigo usando a mesma foto do motociclista bêbado com o seguinte título: “Ele e os seus amigos aterrorizam a cidade” (Cyclist’s Holiday: He and Friends Terrorize Town). O artigo afirma que “quatro mil membros de um moto clube eram responsáveis pelo tumulto.” Mais do que um exagero essa afirmação era uma deslavada mentira, pois nenhum motoclube havia conseguido juntar, pelo menos a metade desse número, naquela época.

Bastaram apenas 115 palavras colocadas logo abaixo de uma imagem gigantesca de um motociclista bêbado para causarem tumulto por todo país. Alguns autores afirmaram que a AMA – American Motorcycle Association, liberou para imprensa uma nota que desmentia a sua participação no evento de Hollister e indicava que 99% dos motociclistas eram pessoas de bem, cidadãos cumpridores da lei, e que os clubes de motociclistas da AMA não estiveram envolvidos na baderna. Porém a Associação Americana do Motociclista não tem nenhum registro de tal nota. A revista Life publicou o comentário de pelo menos de três pessoas, uma delas era Paul Brokaw, um proeminente editor de um periódico chamado Motorcyclist. Brokaw ‘detona’ a Revista Life considerando que a imagem publicada era totalmente descabida e mentirosa.

A íntegra da carta do editor à LIFE

Brokaw, em carta ao editor da Life destaca sua indignação com a forma pela qual o fato fora tratado pela revista:

“Senhores,

As palavras mal servem para expressar meu choque ao descobrir que o retrato do motociclista foi obviamente preparado e publicado por um fotógrafo interesseiro e sem escrúpulos.

Nós reconhecemos, lamentavelmente, que houve uma desordem em Hollister – não ato de 4.000 motociclistas, mas de um por cento desse número, ajudada por um grupo de não motociclistas apostadores. Nós, de forma alguma, estamos defendendo os culpados – de fato é necessária uma ação drástica para evitar o retorno de tais comportamentos.

Entretanto, vocês devem entender que a apresentação dessa foto macula, inevitavelmente, o caráter de 10.000 homens e mulheres inocentes, respeitáveis, cumpridores das leis e que são os representantes verdadeiros de um esporte admirável.”

Paul Brokaw
Editor, Motorcyclist
Los Angeles, Calf.

“Outlaw Motorcycle Clubs” ou os motoclubes 1%

Waco, Texas - USA - Nove mortos
Waco, Texas – USA – Nove mortos

Enquanto os motociclistas comuns e as moto-organizações estavam tentando se distanciar do ocorrido em Hollister, clubes como o Boozefighters buscaram se enquadrar a ele. Assim, o evento de Hollister de 1947 era o que faltava para a consolidação dos motoclubes não alinhados a AMA, ou seja, os “Outlaw Motorcycle Clubs”. Vale ressaltar que estes MCs nunca pertenceram a AMA, logo não foram banidos ou coisa parecida como alguns informam.

Entre 1948 e princípios dos Anos 60’ os clubes de motociclistas (não aliados a AMA) se espalharam para fora da Califórnia estabelecendo um novo capítulo na história do motociclismo nos Estados Unidos. Outlaws Motorcycle Clubs tais como os Sons of Silence Motorcycle Club, surgiram no meio oeste, os Bandidos Motorcycle Club, no Texas; os Pagans Motorcycle Club, na Pennsylvania; entre outros. Durante este período, vários membros do Pissed Off Bastards of Bloomington saíram do seu clube e formaram a primeira versão dos Hell’s Angels Motorcycle Club (HAMC). No mesmo período, os Boozefighters, um dos Outlaws Motorcycle Clubs originais, iniciou o declínio no número de membros.

No meio dessa confusão surgem os motoclubes 1%. Eles emergem em uma escala nacional tendo como suporte o surgimento dos Outlaw Motorcycle Clubs. Para concretizar este nascimento, os clubes dominantes da época foram além. Observando a declaração atribuída a AMA (de que os arruaceiros eram apenas 1%), buscaram para si a responsabilidade de fazer parte daquele 1% que foi apontado em Hollister. Assim, criaram a organização sem regras explícitas, não alinhada a AMA, ou seja, assumidamente Outlaw Motorcycle Club e passaram a se identificar por meio de um emblema em forma de diamante com a inscrição 1%. Concordaram também em estabelecer limites geográficos ao qual cada MC teria domínio.

Sons-of-Anarchy-BN5TUm ponto significativo na evolução dos motoclubes 1% se evidenciou no verão de 1964 na Califórnia. Nesta época, dois membros do Oakland Hells Angels Motorcycle Club foram presos e acusados de terem estuprado duas mulheres em Monterey, no entanto, pouco tempo depois foram liberados, devido a insuficiência de provas. Esse episódio foi à desculpa que faltava para que o governo do estado da Califórnia voltasse os olhos para os outlaw motorcycle clubs (motoclubes fora-da-lei). Ainda em 1964, o senador Fred Farr exigiu uma investigação imediata sobre os estas organizações, encargo que ficou sob a responsabilidade do general Thomas C. Lynch. O relatório de Lynch foi controverso, amplamente divulgado e foi o documento que ajudou a consolidar a imagem do motociclista de motoclube, a qual pouco ou nada mudou de lá para cá.

Rebeldia inspiradora?

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A baderna de 1947 em Hollister, por exemplo, serviu de inspiração para ‘O Selvagem’, filme de 1953 que teve Marlon Brando em um de seus papéis mais marcantes a ponto do uso de longas costeletas para seu personagem, o líder de uma gangue de motociclistas, por exemplo, servir de inspiração para o “visual” inconfundível de Elvis Presley. Recentemente, o seriado americano Filhos da Anarquia, retratando a vida de uma gangue de motociclistas envolvida nas mais variadas atividades criminais, foi sucesso de público e crítica, durando sete temporadas e conquistando fãs também no Brasil a ponto inclusive de copiarem a marca do motoclube fictício.

O Brasil

jaqueta-perfecto-motoqueiroNo Brasil o Abutres MC – um dos maiores do mundo – usa o pacth 1%. Apesar disso possui um belo trabalho filantrópico. Conforme descrito no site do motoclube “o Abutre’s Moto Clube não é uma entidade filantrópica, tampouco com fins lucrativos, porém, em razão da expressiva confiança depositada pela sociedade em geral, realiza, em parceria com outras entidades, ações sociais por todo o território nacional, fomentando obras beneméritas entre as comunidades carentes em geral. O Abutre’s Moto Clube é reconhecido por essas ações, através de diversas comendas; inclusive condecorado pela Organização das Nações Unidas – ONU.”

18Assim, o fato de ser um motoclube 1%, de já ter se envolvido em algumas brigas, não quer dizer que o motoclube seja uma organização criminosa. Há de se ter alguns cuidados quanto a interpretações ao pé-da-letra para não provocar injustiças. Porém, é importante deixar claro que apesar de ter também um perfil que abraça ações sociais o Abutres segue um estatuto rígido e cobra um rigorosa disciplina dos seus integrantes.

Acontece que muitos acreditam na ideia que motoclubismo não é apenas andar de moto. É filantropia e obras sociais. Não, não é. É também isso, mas não somente isso e nem quase só isso. No motoclubismo não há santos como querem alguns ao vender a imagem dos motociclistas como ex-renegados rebeldes ou novos santos sobre duas rodas. Nunca foram santos e nunca serão demoníacos. Serão rebeldes. Alguns com causa, outros sem causa, mas serão diferentes e pensarão diferente.

EAGLE BIKE AGO 120Porém, isso não os rotula como criminosos, arruaceiros, baderneiros, bandidos. É possível ser rebelde e se rebelar, protestar, mesmo defendendo causas por vezes impossíveis sem agredir, matar, linchar e prejudicar a vida de quem quer que seja. Há motoclubes e gangues de motociclistas desde que clubes de motociclistas apareceram no mundo. O primeiro é resultante de uma paixão; já o segundo vive como fora-da-lei. É você a pessoa que escolhe de que lado vai estar.

Quando sobem numa moto tudo muda e essa mudança é mais ou menos intensa e será proporcional ao que você acredita e defende. Portanto, há sim motoclubes de vários perfis. Uns mais violentos, outros menos. Mas eles existem e vão continuar existindo e a imagem, por mais que faça toda a filantropia do mundo, ainda será pautada pelo que foi resultado da soma do ocorrido em 4 de julho de 1947 e logo depois do relatório do general Lynch. Serão sempre garotos-maus mesmo fazendo boas coisas. O mundo sabe disso tão bem quanto vocês mesmos.

São céu e inferno. São e sempre serão bons garotos-maus ou maus garotos-bons. Isso nunca vai mudar, pois é parte do DNA. O aço que forjou a liberdade e a paixão pelas duas rodas, trouxe embutido na receita 1% daquilo que muitos de vocês não gostam e reprovam, mas que infelizmente, nunca será totalmente apagado e nem fará parte apenas da história.

Podem e devem viver e rodar em paz e é o que quer a maioria nesse país onde o profano e o sagrado se avizinham, discordam ou apenas se toleram, mas não se matam. Não são anjos e nem apenas demônios. São os dois. Ao memos tempo, o tempo todo.

Guerra entre motoclubes

O Infiltrado

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