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Cearense viaja 11 mil quilômetros pelo Brasil numa 125cc.

Para muitos de nós, motociclistas acostumados em realizar e/ou ler relatos de longas viagens pelo Brasil e pelo mundo, pode soar normal uma viagem pelo Brasil de 11 mil quilômetros. Mas, seu realizador, Caio Bezerra,  não é um “motociclista de viagem nato”, é apenas um jovem de 22 anos que usava sua moto de baixa cilindrada (125cc) para deslocamentos na cidade de Fortaleza onde reside.

 

 

Foram 11 mil quilômetros percorridos em 175 horas no trajeto de ida e volta de Fortaleza, no Ceará, a Ubatuba, em São Paulo. Em agosto de 2012, a escolha do meio de transporte de Caio Bezerra de Mattos Brito, de 22 anos, para a viagem não foi nada convencional: uma motocicleta. Não uma motocicleta de alta cilindrada, mais adequada para longos percursos, mas uma moto 125 cilindradas, daquelas que não ultrapassa os 100 km/h quando carregada de bagagem.

As aventuras ao longo do percurso estão agora no livro “Um caderno e uma moto”, de Caio Bezerra de Mattos Brito. A publicação será lançada em 18 de novembro, na reitoria da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

“Não fiz esta viagem de moto por falta de dinheiro, fiz para conhecer o Brasil, para me desafiar, para aprender o que é andar pelas estradas do Brasil, como é ser um caminhoneiro, pessoas que movimentam a economia do Brasil, mas ninguém vê. Como são as culturas em outros estados, os sotaques, as aparências, os conceitos e preconceitos”, explica Caio. “A viagem foi uma experiência transformadora. Tenho um amigo que diz que, quando eu fui, eu era uma pessoa e quando voltei, era outra”, revela.

Recém-formado em Biologia e apaixonado por ornitologia – o estudo dos pássaros –, se a viagem de ida até a cidade paulista tinha para Caio um objetivo profissional – fazer um estágio no Aquário de Ubatuba – a de volta era para conhecer o Brasil, sua fauna (principalmente as aves) e sua flora e fazer o registro fotográfico.

 

Medos

Hora de organizar a viagem e, o mais difícil: superar os medos. “Quando faltavam duas semanas para a viagem, tive que me ausentar de vários programas familiares. Por não estar completamente confiante, qualquer crítica ou comentário de deixava angustiado e aumentava os temores. Por outro lado, precisava sempre apresentar certa confiança e certeza que ainda não possuía: se eu não tivesse confiança em mim, quem mais teria?”.

Na estrada, Caio enfrentou chuva, frio, cansaço, sono. “Houve pelo menos dez situações em que dormi no volante. Todas perigosas, mas, em algumas, se vê a situação de morte mais de perto […]. Era o penúltimo dia antes de chegar a Ubatuba e eu estava no Rio de Janeiro. Estava com muito sono e não queria parar. Estava andando na moto e quando ‘acordei’ estava no acostamento do outro lado da pista. Cruzei a pista na contramão. Esperei até entender o que tinha acontecido e agradeci por não ter vindo nenhum carro na contramão naquele exato momento”, conta.

Além disso, as condições de hospedagem encontradas no caminho foram decepcionantes, segundo Caio. “Fiquei em locais absurdos por preços ainda mais absurdos. Acho que eles fazem o cálculo diretamente proporcional: quanto mais fedido e sujo, quanto mais pentelhos houver nos lençóis e travesseiros, quanto mais ratos andam pelas linhas e caibros do telhado, mais você paga”.

E bronca do pai pelo desgaste de uma calça de couro, emprestada por ele. “Foram cinco dias de viagem pegando chuva e sol […]. E ainda tem a volta, que será mais longa. Para amenizar esse desgaste, passei um pano molhado por cima para tirar a poeira e outras sujeiras e coloquei para secar na sombra. Até liguei pra ele avisando e ele ficou com raiva porque eu havia pensado em colocar a calça dele na máquina de lavar. E eu lá sabia que não podia lavar couro em máquina de lavar?”, relata no livro.

Depois de 30 dias fazendo estágio no Aquário de Ubatuba, hora de voltar para a estrada. A volta, mais longa, foi dedicada à observação da natureza e à fotografia. Foram 13 dias percorrendo os estados de Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins Bahia, até chegar a Fortaleza no dia 15 de outubro de 2012. “Principalmente no Centro-Oeste, há longos trechos onde você não vê um único ser humano. {…}. Quilômetros e quilômetros sem vilarejos, sem povoados, sem postos de gasolina, sem borracharia…nada!”, conta.

 

Araras

Como última parada, a Fazenda Toureiros, no município de Canudos, na Bahia. A busca era pelas araras. “Queria ver as araras, mas, ao mesmo tempo, queria chegar a Fortaleza […]. Mesmo já as tendo visto, eu estava um pouco decepcionado por não ter conseguido uma boa aproximação e uma boa foto […]. De repente, as três araras voltaram voando, passando muito perto de mim. Uma delas pousou em uma árvore a dez metros de onde eu estava. Acho que elas viram que eu estava triste e ficaram com pena”, revela.

 

 

Novamente na estrada, a casa era o destino final. “Ninguém pode ter noção da alegria que senti quando cruzei a fronteira do Ceará! Fiquei ainda mais feliz quando comecei a ver ‘Fortaleza’ nas placas”, lembra Caio. E como ninguém é de ferro, o corpo  deu sinais de exaustão. “Meu organismo foi desistindo de resistir com tanto vigor porque o psicológico já sabia que eu estava perto do meu ‘porto seguro’. Teria os cuidados e atenção da minha mãe e família”.

Fonte: Por Verônica Prado, publicado originalmente no site de notícias G1 (Ceará).

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