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Acidentes com motos: quem é vilão?

(*) Por Mário Sérgio Figueiredo

A precariedade do transporte público coletivo nos grandes centros ou a sua inexistência nas pequenas cidades tem forçado a população a buscar alternativas de locomoção rápidas e baratas. Os veículos de duas rodas são a escolha lógica nestes casos e muitos optam pela bicicleta, mas a motocicleta ainda é a preferida por ser o meio mais rápido e econômico de ir e vir no meio urbano, além dos benefícios da possibilidade de transporte de bagagem, da facilidade de estacionamento, da imunidade aos congestionamentos e, claro, do prazer que pilotar uma motocicleta proporciona. Mas é claro que há o lado ruim e é sobre ele que queremos falar.

De todas as indenizações pagas, 76% vão para acidentados com moto

Não há como esconder. Nas últimas três décadas, o efeito colateral, nefasto e assustador para quem utiliza a motocicleta como meio de transporte tem se mostrado cada vez mais real. O elevado número de mortos ou mutilados em decorrência de acidentes de trânsito realmente assusta. A partir do momento em que o cidadão adquire uma moto, fica sujeito aos perigos que as nossas ruas e estradas representam – 76% dos acidentes de trânsito envolvem motocicletas e 50% do total de internações por acidente de trânsito no Brasil também envolvem motociclistas, gerando um custo elevado com o tratamento desses acidentados.

A realidade dos números está aí para não deixar dúvidas: crescimento de 115% nas internações hospitalares após acidentes com motos e aumento de 118% nos custos com internações no SUS (Sistema Único de Saúde), isso nos últimos seis anos, segundo dados do Ministério da Saúde.

Como lado mais frágil dessa equação, o motociclista, apesar de vítima, tem sido taxado de vilão e único responsável pela grave situação dos acidentes com moto no Brasil. Claro que isso não é verdade e é preciso analisar o assunto com clareza para poder definir ações para mudar este cenário. Dizer quem é “mocinho” e quem é “bandido” nesse enredo não dá audiência.

Com uma análise simples e direta é possível perceber que não há apenas um culpado, tampouco uma única solução. Mas vamos imaginar que todo o setor é uma corrente, onde cada elo é uma parte que tem uma função específica e assume o peso de sua responsabilidade para que tudo funcione harmoniosamente. Acompanhe:

  1. Tecnologia – A pesquisa e o desenvolvimento de materiais e equipamentos para motocicletas mais resistentes e seguros é constante e rapidamente torna-se disponível;
  2. Fabricantes – Os fabricantes de motocicletas absorvem em seus produtos todas as novas tecnologias oferecidas e comercialmente viáveis, colocando no mercado produtos cada vez mais seguros e duráveis;
  3. Medicina – A mesma pesquisa e tecnologia também é rápida no campo da medicina, onde se utiliza de tratamentos cada vez mais eficientes, abreviando o tempo de recuperação de traumas;
  4. Indústria – A indústria de acessórios e EPIs também se vale da tecnologia para colocar no mercado equipamentos que oferecem mais proteção;
  5. Motociclistas – Apesar de serem vítimas, muitos motociclistas são também vilões ao negligenciarem o uso dos equipamentos corretos de proteção e/ou adotarem comportamento inadequado no trânsito;
  6. Detran – Este é o órgão responsável pela formação e habilitação dos motociclistas; não é preciso ser muito esperto para perceber que este elo na corrente tem grande responsabilidade neste enredo;
  7. Prefeituras – Essas são responsáveis pelas vias por onde circulam milhões de motociclistas todos os dias; aqui também há falhas e é preciso muita atenção ao circular por ruas e avenidas com buracos, sujeira, desníveis perigosos, tampas de bueiros e outras armadilhas.

O motociclismo é uma realidade irreversível e necessária - foto: Portal Você e Sua Moto

Como se percebe, nessa corrente, há pelo menos três elos que precisam de atenção e destes, dois não estão ao nosso alcance mudar. Mas nós motociclistas precisamos de forma permanente melhorar. Mas aformação e a habilitação de motociclistas depende do Governo, assim como a conservação das ruasdepende das Prefeituras. Há um aspecto interessante nisso tudo. Nos elos da corrente que cumprem a sua função, a gestão é profissional. Quem atua, faz corretamente e de forma profissional, para trazer bons resultados. E do outro lado, os elos que necessitam de alguma atenção por não cumprirem corretamente suas funções, a gestão é política, exercida por pessoas sem a especialização necessária ao cumprimento de suas funções.

Procure saber na sua cidade se as pessoas que cuidam do recapeamento de ruas e avenidas sabem as necessidade de uma motocicleta quanto a aderência. Verifique ainda se quem cria regras para o trânsito andam de moto ou conhecem minimamente suas necessidades muito específicas. Essas pessoas precisam entender que a motocicleta tem necessidades particulares para rodar com segurança e isso não pode ser negligenciado pelo poder público. É necessário profissionalizar a gestão destas áreas que cuidam da circulação e da segurança das vias e, claro, entender que estas pessoas devem ter notória e comprovada experiência e conhecimento do mundo das duas rodas e todos os detalhes que o cercam.

Educar o cidadão de amanhã desde o ensino fundamental trará bons resultados a longo prazo - imagem de arquivo

No lado dos motociclistas que insistem em abusar da sorte e adotam comportamento inadequado no trânsito, é preciso manter as campanhas de conscientização permanentes e atuar fortemente naeducação e na formação. Um acompanhamento mais de perto nos CFCs – Centros de Formação de Condutores, para que ofereçam cursos que realmente capacitem condutores de motocicletas para as ruas.

O momento pede que urgentes medidas sejam efetivamente colocadas em prática para que produza efeitos imediatos e salvem milhares de vidas. Note que não estamos falando de nada muito longe e difícil de resolver. Basta apenas vontade.

Primeiro é preciso reconhecer que a presença das motocicletas nas ruas e estradas é uma realidade irreversível e necessária, que tende a crescer e merece receber atenção especial e diferenciada. É preciso que o Governo aja com sobriedade e interesse. As ferramentas para isso já existem (o Código de Trânsito Brasileiro – CTB – e as resoluções do Contran), basta efetivamente colocá-las em prática, exigindo o seu cumprimento com rigor, tanto nos grandes centros como no interior dos estados onde a situação atinge índices alarmantes de descumprimento das leis de trânsito. O orçamento para implantação dessas medidas seguramente sairá da drástica redução nos custos de atendimento médico aos acidentados ou com a aposentadoria dos inválidos.

Complementarmente, é necessário também que instituições privadas voltadas ao motociclismo se unam e façam um trabalho firme de pressão. Abraciclo, Confederação e federações estaduais de motociclismo, associações de pilotos, montadoras, setor de motopeças e a mídia motociclística, todos devem se unir em torno desse objetivo comum, afinal quanto mais a imagem da motocicleta transmitir segurança, maior será o número de futuros motociclistas, o que se traduzirá em crescimento nas vendas e maiores lucros para todos que dependem da motocicleta para a realização do seu negócio.

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Entendemos como Governo órgãos como Denatran, Contran, Detrans, polícias de trânsito federal, estaduais e municipais, e todos os órgãos públicos direta ou indiretamente ligados às questões de trânsito.

 

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